Fahrenheit 451 de Ray Bradbury – Uma Análise

Janeiro, 2015

 

O livro FAHRENHEIT 451 de Ray Bradbury mostra a sociedade num tempo futuro ao nosso, no qual não é permitida a obtenção e leitura de livros. O livro mostra como essa sociedade se organiza, quais são seus ditames e pensamentos. O ponto principal do livro é a demonstração de quebra do status quo de um personagem, mostrando toda a evolução de seu psicológico inerte para um psicológico pautado no desenvolvimento de senso crítico.

 

  1. Introdução

O livro Fahrenheit 451 foi escrito em 1953, porém mostra-se extremamente atual por apontar problemas que acontecem ainda hoje em nossa sociedade. O livro aborda questão como o controle midiático, escassez de leitura, a falta de senso crítico dos cidadãos e sua consequente inércia perante questões conflituosas da realidade.

A presente análise tem por objetivo analisar detalhadamente o enredo do livro, as críticas e referências históricas apontadas. Além disso, tem-se por objetivo também analisar porque o livro ficou famoso em determinada épocas após a sua edição.

 

2) A crítica 

O livro Fahrenheit 451 é uma narrativa que faz alusão a um futuro imaginário, porém considerado próximo, em que as pessoas da sociedade vivem escravas do imediatismo e do pensamento acrítico. Esse pensamento acrítico e irreflexivo é oriundo do próprio desenvolvimento da sociedade e da consequente mudança dos indivíduos em relação às suas visões de mundo. Essas questões, objetos da obra, são afirmados pelo principal fato de haver grande abominação à literatura e às consequências oriundas desta.

Na sociedade criada pela obra há a queima dos livros por bombeiros. Essa queima dos livros deve ser interpretada por meio do fato da sociedade fictícia em questão acreditar que a literatura poderia trazer grandes malefícios para as pessoas, as tornando antissociais, isto é, fora da realidade vivida pela maioria. No entanto, nessa “realidade vivida pela maioria” há completa alienação das pessoas e ausência de qualquer pensamento crítico, se vivendo, simplesmente, para trabalhar.  Sendo assim, vale afirmar que a queima dos livros pode ser interpretada como uma forma de purificação da sociedade, ou seja, os livros deveriam ser destruídos pois representavam uma ameaça a sociedade já estabilizada por todo desenvolvimento histórico-social.

Com essa ausência dos livros há completa alienação e robotização dos indivíduos componentes dessa sociedade. Os indivíduos possuem apenas um conhecimento prévio sobre as questões da vida e não se aprofundam completamente no conhecimento. Essa questão é bastante contraditória se fomos comparar os homens  das máquinas. Nesse “mundo” sem livros os homens não conseguem exercer a sua própria característica humana e passam a não se diferenciar de meras máquinas, que trabalham de forma pré-ordenada.

O nome do personagem Montag sugere a tradução alemã de segunda-feira. Essa definição não pode ser considerada como uma mera coincidência. Segunda-feira significa o início da semana laborativa e, desse modo, relaciona-se o próprio personagem com o trabalho realizado por ele.  O personagem existe apenas para exercer o seu trabalho, sem qualquer tipo de questionamento.

Uma outra questão a salientar sobre a obra é a questão da industrialização e a produção de bens culturais em massa, relacionado ao consumismo necessário da sociedade. Nesta sociedade, há grande valorização aos conhecimentos prontos e imediatos, e, portanto, há a eliminação de qualquer raciocínio a respeito das relações sociais e interpessoais que estariam intrínsecos a estes. Uma das personagens da obra, por exemplo, constitui uma família por meio da televisão e passa a se relacionar com a mesma de forma distante e automática. Essa questão nos traz a reflexão de que a sociedade, no seu desenvolvimento, alcança um ponto em que as pessoas, em si, tornam-se completamente mediáticas e televisivas. Os livros, neste caso, aparecem como riscos ao modo da sociedade se posicionar e ao modo de valorizarem os pensamentos concluídos e de fácil entendimento.

Há também um grande tema a ser discutido a respeito a obra: a crítica ao vazio existencialista dos indivíduos e a inversão de valores dos mesmos. Chega-se à um momento em que as relações próprias dos indivíduos passam a ser caracterizadas por um vazio emocional e pela pura conveniência, ou seja, as pessoas acabam por se relacionarem pelo simples fato de precisarem se relacionar e não por questões emocionais que, a priori, faziam parte da própria característica dos homens. Neste caso, vale afirmar o exemplo já citado acima: de ter uma família “televisa”, em que não há relações pessoais diretas e de qualquer natureza afetiva. Além desse exemplo, pode-se citar o fato das “mães” de família não relacionarem efetivamente com seus filhos e maridos, uma vez que estes são considerados apenas instrumentos necessários a convivência social.

Além da desvalorização das próprias relações pessoais diretas e emocionais, há grande inversão de valores dos indivíduos em relação a outros indivíduos. A importância de cada indivíduo passa a ser associada à satisfação da pretensão da própria sociedade. Os indivíduos existem para servir a sociedade como um todo, e nada mais que isso. Se um indivíduo violar aquela ordem social estabilizada, seu valor passa a ser totalmente desconsiderado. O cão-polícia mencionado pelo livro, por exemplo, representa completamente essa reflexão: ele existe simplesmente para destruir qualquer tipo de violação a ordem social. A partir do momento em que se cria algo, mais especificamente uma máquina, para deteriorar qualquer pensamento contrário da sociedade, vive-se um tempo sem qualquer liberdade. Qualquer resistência ao estável torna-se perigoso ao indivíduo, o qual é totalmente repreendido.

Além da questão dos indivíduos serem enquadrados como grande prestadores ao funcionamento da sociedade, deve-se mencionar o grande individualismo presente nesta. Os indivíduos vivem por si e não há qualquer importância dada aos demais. Se algo infringir determinado indivíduo, ele poderá fazer de tudo para proteger a si e não ao outro. Essa questão pode ser exemplificada pelo fato da própria mulher de Montag ter o denunciado aos bombeiros, para que estes pudessem o prender. A mulher de Montag não se importou com seu marido e nem tentou entendê-lo, simplesmente o traiu para se próprio defender e obedecer as ordens do conjunto social.

Há na obra uma grupo de resistência a toda essa ordem social constituída: os conhecidos como homens-livro. Esse grupo de homens são considerados formas de resistência literária e de reflexão. Encontram-se totalmente isolados da sociedade para que possam viver em paz e transmitirem seus conhecimentos uns para os outros sem qualquer interferência. Essa forma de resistência, representa outra forma de encontrar a purificação da sociedade: por meio dos livros. Acreditam que seja necessário manter formas que preservem os livros para que a sociedade nova que há de nascer possa reverter novamente os valores e o pensamento crítico dos homens.

Por fim, vale afirmar que todas essas características atribuídas a sociedade fictícia criada pela obra não pode ser relacionada somente com o totalitarismo daquela sociedade, isto é, a forma do Estado se posicionar para com seus indivíduos. É importante frisar que essa sociedade foi o resultado final necessário do desenvolvimento social, econômico e político que os indivíduos adotaram durante as suas histórias.

 

3) Influência da obra

A obra de Ray Bradbury “Fahrenheit 451” apesar de ter sido publicada, primeiramente, em 1953, ao decorrer dos anos foi muito discutida, pois sua ação se passa em um futuro (em relação à data da publicação que não foi tão distante dessa época) e também devido à importância dos temas abordados. Vamos, aqui, tratar de alguns deles, como totalitarismo, censura, cultura de massas, terrorismo, que, de certa forma, estão todos interligados, pois são temas que incidem em questões cotidianas desde épocas passadas e que se repetem, levantando os debates e influências que o livro teve depois de sua publicação.

No que tange o totalitarismo, percebe-se que a individualidade é sacrificada a razões de Estado, pois por a filosofia, racionalismo, qualquer meio de indagação fazerem mal à sociedade, os bombeiros queimam os livros que são encontrados a fim de não haver mais tristezas, como Beatty, chefe dos bombeiros esclarece na página 83 “Cada homem é a imagem de seu semelhante e, com isso, todos ficam contentes, pois não há nenhuma montanha que os diminua, contra a qual se avaliar”. Na obra, a idéia de que existe uma ditadura da maioria que pune o diverso aparece em vários momentos do livro, na maioria das vezes personificada em Beatty, no momento em que está prestes a incendiar os livros da senhora Blake, por exemplo, ele diz “Não há o menor acordo entre esses livros. Você ficou trancada aqui durante anos com essa malfada Torre de Babel. Saia dessa situação! As pessoas nesses livros nunca existiram”. Mas ao mesmo tempo percebe-se que própria sociedade, de certo modo, levou a esse totalitarismo, como está esclarecido na página 83 “A coisa não veio do governo. Não houve nenhum decreto, nenhuma declaração, nenhuma censura como ponto de partida. Não! A tecnologia, a exploração das massas e a pressão das minorias realizaram a façanha, graças a Deus”. Ao fazermos uma digressão, se analisarmos o nazismo e outros governos totalitários há uma aceitação da sociedade ao governo totalitário, pois tem como esperança uma melhora. No governo de Hitler, por exemplo, os alemães viam em Hitler uma salvação para a crise que o país enfrentava após a derrota da Primeira Guerra Mundial, e aceitaram se submeter ao regime, que pretendia eliminar qualquer oposição. No Brasil, apesar de contemporaneamente com o nazifascimo haver o governo autocrático de Getúlio Vargas, o ápice do totalitarismo foi com a Ditadura Militar ocorrida em 1964, que teve como indícios que teria apoio popular, quando, diante de uma grave crise econômica e política, as senhoras de Copacabana organizam um manifesto “Marcha da Família com Deus”que reuniu entre 30 mil a 40 mil pessoas, pois não estavam satisfeitas com as reformas de base apresentadas por João Goulart. Sendo assim, em 31 e março de 1964, os militares tomam o poder totalitário.

Com base nesse contexto, vale ressaltar que uma das características do totalitarismo é a censura. Por censura, dispõe o dicionário Houaiss que é “análise feita por censor, de trabalhos artísticos, informativos, com base em critérios morais ou políticos, para julgar a conveniência de sua liberação à exibição pública, publicação ou divulgação”. É preciso apontar que na data que a obra teve sua primeira publicação, 1953, já fazia 20 anos que os nazistas haviam queimado, em praça pública, livros de escritores intelectuais. No entanto, esse não foi o primeiro ato de censura, na Contrarreforma foi utilizado, por exemplo, e também não foi o último. No Brasil, foi implantado por meio das raízes portuguesas; as primeiras manifestações de censura no país aconteceram contra os ideais iluministas e em defesa da igreja católica, ainda nos tempos da colonização. Porém, as maiores práticas repreensivas foram implantadas no período da ditadura militar, entre os anos de 1964 a 1985. Na época, o governo intensificava uma fiscalização voltada para o curso político, indo contra os ideais da imprensa em contestar as formas de governo, bem como para o lado artístico, defendendo a manutenção dos valores morais da época. Os textos eram fiscalizados com antecedência, sendo encaminhados ao órgão competente, ou então através de agentes que se instalavam nas dependências dos jornais. Já os textos artísticos eram todos encaminhados ao órgão da censura, fossem da literatura, do teatro ou da música.

Porém, de acordo com Marco Antonio Villa, autor de Ditadura à Brasileira a censura acabou resultando, paradoxalmente, em um apelo comercial mais forte, favorecendo a ampliação das vendas de discos e do público dos shows, pois comprar um disco ou assistir a um show era considerado uma forma de resistência. E, percebe-se na obra de Bradbury que essa censura, muitas vezes, como é o caso dos professores de Harvard e até mesmo de Montag, os deixava com uma maior vontade ler os livros e decorá-los, pois acreditavam que um dia iriam vencer esse totalitarismo, como diz Granger na página 200 “E quando nos perguntarem o que estamos fazendo, poderemos dizer: estamos nos lembrando. É aí que, no longo prazo acabaremos vencendo”.

Quanto a Cultura de Massa e os meios de comunicação, de acordo com Manuel da Costa Pinto, “Bradbury diagnosticou um mundo em que a escrita foi reduzida a um papel meramente instrumental e no qual a literatura e a arte têm função “culinária””, isto é as personagens são alfabetizadas, mas só querem ler a programação de suas televisões ou o manual técnico que lhes permitirá ter acesso a um entretenimento. Ainda para Manuel da Costa Pinto, é difícil avaliar o quanto essa descrição de um mundo assolado pela indústria do entretenimento soava caricatural quando Bradbury publicou Fahrenheit 451. No entanto, em 1956 (apenas três anos da publicação de Fahrenheit 451), já havia livros, como “A elite do poder”de C. Wright Mills que trata da transformação do público em massa, para o autor na massa: o número de pessoas que expressam opiniões é muito menor que o número de pessoas para recebê-las, pois a comunidade de públicos se transforma numa coleção abstrata de indivíduos que recebem impressões através de veículos de comunicação em massa; as comunicações que predominam são tão organizadas que é difícil ou impossível ao indivíduo responder imediatamente; a colocação da opinião em prática é controlada pelas autoridades que organizam e fiscalizam os canais para tal ação; a massa não tem autonomia em relação às instituições, pelo contrário, os agentes de instituições autorizadas nela penetram, reduzindo-lhe a independência que possa ter na formação da opinião pela discussão. Sendo assim, percebe-se que na ficção de Bradbury, os personagens vivem em uma cultura de massa, a qual estão alienados pela “família”, as televisões programadas; eles obedecem tudo que a televisão e os rádios mandam e, conforme afirma Mills posteriormente à Fahrenheit 451 “O indivíduo não confia em sua experiência, até que seja confirmada por outro, ou pelos meios de comunicação” e “A liberdade de levantar problemas parece limitar-se, cada vez mais, aos poucos representantes de interesses que dispõem de acesso pronto e permanente aos meios de comunicação”. Para Leonel Rocha, professor do programa de pós-graduação em Direito da Unisinos um dos pontos do livro trata da erudição que foi roubada da sociedade, é uma sociedade de cultura pronta, que já vem com a resposta pronta.

Um momento que a cultura de massa fica exposta é na página 79, quando Beatty em uma passagem diz “Você pergunta: quando tudo começou, esse nosso trabalho, como surgiu, onde, quando? Bem, eu diria que ele realmente começou por volta de uma coisa chamada Guerra Civil, embora nosso livro de regras afirme que foi mais cedo. O fato é que não tivemos muito papel a desempenhar até a fotografia chegar à maioridade. Depois, veio o cinema, no início do século vinte. O rádio. A televisão. As coisas começaram a possuir massa. (…) E porque tinham massa, ficaram mais simples (…). Clássicos reduzidos para se adaptarem a programas de rádio de quinze minutos, depois reduzidos novamente para uma coluna de livro de dois minutos de leitura, e, por fim, encerrando-se num dicionário, num verbete de dez a doze linhas (…)

Vale ressaltar que Fahrenheit 451 também influenciou outras obras artísticas como o filme dirigido por François Truffaut em 1966, e também o filme Fahrenheit 9/11 escrito, dirigido e produzido por Michael Moore.

Conclui-se, então, que Bradbury foi muito sensível e perspicaz ao perceber que tais assuntos eram relevantes e que causariam tanto impacto e repercussões, o que fez com que Fahrenheit 451 tivesse diversas edições.

 

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