Resenha: Ensaio Sobre a Lucidez – Saramago

Outubro, 2014

Em semana de MMA político diário, digo, em semana de 2º turno, não haveria livro melhor desse ilustre autor que “Ensaio sobre a Lucidez”.

Antes de começar a escrever esse artigo cabe ressaltar que o que se discutirá aqui é a crítica que o livro traz, e assim como no livro os nomes não são primordiais e sim são o sistema democrático e a sociedade como um todo, aqui também o serão. Este artigo não tratará portanto de favoritismos políticos ou de análise dos candidatos a presidência.

A História (sem spoilers, não se preocupem)

Saramago escreve no mesmo cenário onde se passa o livro “Ensaio Sobre A Cegueira”, porém 4 anos após o episódio narrado. Nesse livro a população é acometida por um novo tipo de cegueira, a chamada “cegueira branca”, na qual a enorme maioria da população decide votar em branco. Sendo passado então no mesmo cenário que ensaio sobre a cegueira, e o próprio título referindo-se a esse livro, ensaio sobre a lucidez retoma o conceito de cegueira e seus desdobramentos expostos no segundo, além de narrar os acontecimentos ocorridos com os personagens do primeiro livro. O livro criticará então a democracia com base em ambas as cegueiras narradas.

O livro se inicia no dia das eleições, um dia muito chuvoso no qual as autoridades partidárias (membros do Partido de direito – PDD, do partido de esquerda – PDE e do partido do meio – PDM) ficam muito preocupadas pois apenas um punhado de pessoas foi exercer seu direito de cidadão. Como nada em Saramago é acidental, fica aqui segundo o Dicionário de símbolos de Chevalier e Gheerbrant o significado da chuva: “Aquilo que desce do céu para a terra é também a fertilidade do espírito, a luz, as influências espirituais”.

Quando se dá precisamente 16hs no relógio a maioria da população sai para votar, e o resultado dos votos revela que a mais de 70% da população votou em branco. As autoridades tentam pressionar a população perguntando-lhes porque é que haviam votado em branco e porque resolveram sair as 16hs de casa, porém nenhuma das pessoas sabe explicar tal pergunta da forma como as autoridades gostariam, limitam-se a dizer que saíram porque isso podem, e votarão porque é um direito garantido pela Constituição Federal.

As autoridades, indignadas com a situação ao invés de perguntar a população porque é que deixaram de exercer seu direito de cidadão escolhendo um representante, escolhe agir de maneira totalmente arbitrária. Segue-se então uma série de fatos que revelam a histeria das autoridades aliada a sua falta de preparação para lidar com a situação, o que leva a tomada de passos rápidos, sem o devido pensar, para tentar reverter o fato o mais rápido possível. Uma decisão sendo a mudança da capital do país para outros lugar, deixando-a sem policiamento qualquer e declarando estado de sítio. A partir disso é declarada uma investigação policial para descobrir quem estava por trás de tamanho golpe ao sistema. Ao contrário do que os governantes pensam –que o estado de sítio levará ao caos e a violência desmedida– não há indícios quaisquer de aumento da criminalidade, ao contrário, quando se suspende o serviço de limpeza das cidades, as mulheres saem as ruas em ato de solidariedade com suas vassouras para elas mesmas limparem as ruas.

Análise

Saramago busca nessa obra criticar o sistema democrático que vivemos. Veja, apesar de o voto branco ser direito garantido pela legislação do país e feito com total lucidez pelos cidadãos, as autoridades, aqueles que a população escolheu para representa-los outrora não viu a situação assim. Ao contrário, viram os votos brancos como um afronto direto ao sistema, denegrindo aqueles que votaram em branco como reacionários brancosos, isto porque temiam perder todos os privilégios que um cargo público dispõem. Se considerarmos que elegemos representantes para que esses nos garantam os direitos conferidos tanto nas leis Constitucionais, como nas infraconstitucionais, declarar um estado de sítio frente ao exercício lícito de um direito é muito grave.

As vezes é necessário um descolamento de nossa realidade por meio de um caso extremo como o narrado no livro, para que possamos analisar a nossa realidade presente de uma maneira melhor. É por isso que Saramago nos leva a um outro país, que poderia ser o nosso próprio, para criticar a nossa realidade presente. Quando os governantes decidem impor estado de sítio, desconstituindo assim o sistema político vigente (passa-se a ter algo semelhante até a um sistema ditatorial), há a paz, há o resgate das virtudes dos homens, não há violência, há solidariedade e respeito ao próximo. A paz nesse mundo fictício não é atingida por violência mas sim por um grito estridente ainda que silencioso na prática, isto é: o voto branco e a consequente destruição do sistema vigente anteriormente. É através da lucidez, do reconhecimento de seus direitos como cidadãos e dos resgates aos valores humanos tão esquecidos no dia-a-dia que o povo passa a concretizar a epígrafe de Ensaio sobre a Cegueira: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara. Assim a população se liberta das cordas que os fazem fantoches, isto é, libertam-se da manipulação pela falácia política.

Assim, Saramago nos propõem uma análise crítica do sistema que chamamos de democracia. Elegemos (e elegeremos no próximo domingo) nossos representantes acreditando estarmos realizando nosso direito de cidadão democrático em sua máxima. No entanto, nos contentamos em votar sem olhar, sem reparar. Então, que ao menos nessa eleição tenhamos um pouco da lucidez de Saramago –não pela escolha entre voto branco, nulo, ou a algum candidato- mas sim da lucidez do voto. Que nessa eleição votemos de forma consciente, sabendo das vantagens e desvantagens que nosso voto nos trará, e sobre tudo sem perder de vista os valores humanos tão duramente batalhados e conquistados no livro: a solidariedade e o respeito mútuo.

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