O Dia da Grande Colheita

Novembro, 2014

O líquido dentro do copo de Oliver tremia ao som alto que a sanfona, o banjo e a flauta Pan faziam. Em seu rosto, estava estampado um grande sorriso, assim como estavam todos os outros bonecos da festa. Ali, num mundo chamado A Fábrica todos os bonecos se divertiam, era, afinal, o dia da Grande Festa, era o dia da Grande Colheita!

Ela só acontecia uma vez por ano, quando o sol rose iluminava os campos de plantação de tal forma que os alimentos que levariam meses para tomar forma e serem colhidos são todos crescidos de uma vez só! O mesmo vale para todas as rosas que tivessem nos jardins da Fábrica, todos floresciam de uma vez só, deixando aquele mundo maravilhoso e muito cheiroso!

–Ei, Oli, você tem que ir lá! Essa é sua chance! –Disse Assim que ela terminar de cantar você vai lá conversar com ela! –Disse um amigo de Oli, Boris, observando que o boneco não tirava os olhos da cantora, Jo.

–Você podia tentar chegar um pouco mais perto do palco também, Oli, ela não vai pular em você sabe… –Disse Boris, rindo de Oli.

–Se eu quiser ir até mais perto do palco eu vou oras! Nada me impede.

–Nada mesmo? –Riu Boris tanto que seus cachos ruivos balançavam sem parar, junto com sua barriga enorme.

–Bem, agora você vai ver só! –Disse Oli indo até perto do palco. Ele mostraria para Boris que só tinha falado com Jo até aquele dia porque simplesmente não queria falar, mas que podia fazer o que quisesse, e também, foi como ele disse, não é como se ela fosse cair em cima dele e expulsa-lo de assistir o show!

Na Fábrica todos dançavam, uns, com amigos dançavam enganchando os braços e rodando, outros, os namorados, dançavam abraçados, as crianças com uma mão para cima e com apenas um pé no chão, aquele era o dia mais feliz do ano e não havia uma pessoa no mundo que não estivesse contente e dançando.

Oli com seus cabelos negros e cacheados foi fazendo espaço entre a multidão para chegar perto da vocalista, a qual Oli não sabia como era possível para ela cantar e ao mesmo tempo manter um sorriso enorme no rosto. Conforme ia chegando perto de Jo suas pernas já começavam a ficar bambas, ela era a boneca mais linda que havia visto, a pele clara e os cabelos loiros lhe davam um aspecto de doçura e bondade que ele nunca havia visto em ninguém.

Quando finalmente chegou perto do palco seu coração parecia que iria sair correndo de seu peito e era isso que ele teria feito, se não fosse o fato de que quando seu olhar encontrou com a de Jo a música parou! Não no sentido metafórico, nada disso, a musica parou porque Jo caiu do palco! Porém, antes que atingisse o chão Oli a segurou em seus braços. E diante disso, a banda assustada, parou de tocar.

Nessa hora, todos da Fábrica olharam rapidamente para o palco, Jo, envergonhada começou a ter o rosto completamente vermelho, seus olhos começaram a encher de lagrimas quando ela colocou as mãos sobre os olhos rapidamente. Diante disse, Oli teve que pensar rápido, olhou para a banda e fez um sinal para que continuassem a tocar. Ele correu com Jo para atrás do palco, onde ninguém conseguiria vê-la e correu para cima do palco. Com o microfone que Jo havia deixado cair ele desculpou-se para os bonecos da Fábrica, disse que havia ocorrido uma falha técnica mas que tudo já estava bem, e que hora de festejar. Falou isso tudo com a voz mais animada que pode encontrar. Assim que Oli terminou de falar todos os bonecos começaram a dançar novamente, ninguém, a não ser os poucos que estavam bem próximos ao palco viram o que aconteceu, assim ninguém riu de Jo e todos retornaram a sua dança.

Assim que desceu do palco, porém, sua cabeça girava, foi tomado pela desorientação, quase caiu, mas antes que tombasse por completo, Jo colocou seu corpo sob o dele. Ela não era tão forte para carrega-lo, como ele havia feito, mas havia conseguido com que ele não se machucasse, que sentasse devagar no chão.

–Você está bem? –Perguntou Jo, enquanto Oli tinha uma das mãos em seu peito e os olhos arregalados.

–Foi a coisa mais assustadora que eu já fiz! –Disse ele arfando. O que fez com que Jo, por sua vez sorrisse, entendendo que ele era tímido demais, na primeira vez que ela havia subido no palco para cantar, havia sentido algo parecido também.

–Eu queria te agradecer pelo que fez. –Disse ela com um sorriso sincero, dando um beijo em seu rosto. O que fez com que o coração de Oli, que começava a diminuir o ritmo, começar a bater mais rápido novamente. Oli ficou assim, tão nervoso, envergonhado, feliz, emocionado e com medo, que não conseguiu dizer mais nada!

–Eu preciso voltar lá pro palco agora, senão vão começar a perceber que algo aconteceu. –Disse ela ficando em pé, dando-lhe mais um beijo e apertando sua mão. –Te vejo mais tarde! E obrigada de novo! –Disse ela correndo de volta para o palco.

Oli voltou então para junto de seu amigo Boris que havia visto o ocorrido, e exigiu que ele lhe contasse o que havia acontecido atrás do palco. A felicidade de Oli era tanta, que ele não podia evitar de pular e sorrir o tempo todo.

Assim que acabou o show Oli correu para o palco com Boris. Logo Jo desceu e lhes convidou para uma fogueira, onde ela havia marcado um encontro com alguns amigos e o resto da banda.

Jo e Oli conversaram por muito tempo em volta da fogueira, de forma que Oli depois de algum tempo de conversa pode finalmente diminuir seus batimentos cárdicos, e relaxar. Jo era ainda mais legal e bela, em todos os sentidos da palavra, do que sua aparência deixava transparecer.

Em certo momento da noite, Oli levantou-se para pegar uma bebida para Jo, porém assim que ela deu um gole, para seu enorme desespero, seus olhos viraram e ela desmaiou! Os amigos de Jo rapidamente vieram e deitaram-na no chão.

–Desculpem, eu não sei o que fiz, ela é alérgica ao que eu lhe dei? –Dizia Oli desesperado, ajoelhado ao lado de Jo, segurando sua mão. Foi quando um membro da banda apareceu e tirou ele de perto de Jo.

–Deixe que o irmão dela sabe cuidar dela. –Disse um amigo de Jo apontando para o flautista da banda a sua frente que colocava a cabeça de Jo sobre suas pernas e segurava seu rosto.

Oli ainda estava nervoso, queria ficar com ela, e não parava de olhar para trás enquanto o amigo de Jo o levava para longe.

–Não foi você, fique tranquilo. A jo, ela está…. Ela está doente… Já faz algum tempo que está assim, as vezes seu coração falha e ela desmaia, é como uma resistência de seu corpo, quando é muito para o coração ela, ela desliga, e foca inconscientemente em apenas mantê-lo batendo.

A noticia atingiu-lhe como uma flecha. Uma súbita vontade de chorar lhe tomou. Sentiu-se sem chão. Desnorteado.

–Ei, cara você espera aqui, que daqui a pouco ela acorda. –Disse o amigo de Jo dando um tapinha nas costas de Oli e deixando sentado num banco. Imediatamente Boris veio e sentou-se ao seu lado.

–Eu ouvi o que aconteceu…. –Disse Boris olhando para o amigo que tinha o olhar vidrado em algo que Boris não conseguia ver, estavam vidrados em seu próprio pensamento, em sua própria alma. Eles permaneceram assim em silencio por longos minutos, até que Oli, com uma voz fraca disse.

–Que é que fazemos quando alguém está doente, Boris? –Perguntou ele com lágrimas nos olhos e o coração pesado.

–Nós pedimos para que o Criador, O Grande Artista, conserte tudo…

–Mas, alguém já chegou a ver esse Grande Artista? –Perguntou Oli tristemente.

–Não, ninguém nunca o viu… Mas, sabemos que ele existe, senão quem é que criaria todos os bonecos? Quem é que teria construído toda a Fábrica? E quem é que possibilitaria A Grande Colheita? –Disse Boris com uma voz suave, colocando um braço sobre o ombro do amigo. –Se você pedir para ele consertar, e for isso o certo, é isso que ele vai fazer!

–Mas, eu não entendo isso Boris, como é que ele vai consertar, ele é um boneco como nós? Porque se for um boneco como nós então nós conseguiremos conserta-la também!

–Não, Oli… Ele não é um boneco como nós… –Disse Boris tentando achar as palavras certas. –Ele tem um pouco de “boneco” nele mesmo, porque nós temos um pouco dele em nós mesmos, para o Artista criar um quadro um pouco de sua essência fica na obra, Oli. Mas, ele é alguma outra coisa que não sabemos porque ainda não conseguiríamos entender, ele é algo a mais, algo surpreendente!

–O que é que tem dentro de nós que faz parte dele, Boris?

–Ora, Oli, é a luz! Dentro de nós há um pouquinho de luz que nos faz funcionar, essa luz é um pedacinho do Artista. –Explicou Boris com um sorriso, recebendo um sorriso de seu amigo de volta, entendendo sua explicação.

–Você sabe Oli, assim como as peças que nos dão vida se encaixam e fazem com que nós vivamos, as peças do universo da Fábrica e além dela um dia vão se encaixar perfeitamente para nós. –Diante das palavras do amigo, Oli lhe sorriu novamente de volta.

Poucos segundo após Boris ter terminado sua frase, um amigo de Jo veio correndo até eles, dizendo que Jo havia voltado! Oli sorriu para Boris, agradecendo-lhe, e logo correu até Jo.

–Desculpe… Não queria que você visse isso… Acabamos de nos conhecer, não queria que já tivesse que presenciar isso. –Disse Jo com a cabeça para baixo.

Oli, porém, segurou seu queixo, levantando-o e olhando em seus olhos. –Isso não tem o menor problema, Jo.

–Meu coração é fraco, ele não funciona direito, está quebrado! É claro que é um problema! –Disse ela virando-se de costas e começando a chorar.

–Jo… –Disse Oli abraçando-a. –Você vai ver que o Artista vai deixa-la melhor… –Dizia isso enquanto abraçava-a fortemente e ela soluçava em seus braços e a levava para um lugar tranquilo, longe dos outros, onde os dois se sentaram.

Quando as lagrimas de Jo secaram, eles lá ficaram mais longas horas da madrugada conversando.

Em certo ponto da conversa, Oli reuniu toda a coragem que tinha dentro de si e disse.

–Jo, eu gosto de você! Sabe, gosto mesmo! –Disse ele suspirando com um sorriso, que, infelizmente, logo foi embora. Novamente Jo não estava passando bem! Ela começou a tremer novamente.

–Jo, me falei o que fazer! –Gritou ele para Jo, mas ela logo desmaiou em seus braços. O pior é que não havia mais ninguém lá! Já era muito tarde e todos já haviam voltado para suas casas. Oli teria que lidar com a situação de novo, assim inclinou a cabeça de Jo e esperou que ela voltasse enquanto mexia em seu pescoço, como seu irmão havia feito.

Demorou pouco mais de meia hora para que Jo voltasse, porém, dessa vez ela não havia voltado tão bem como da ultima.

–Você voltou! –Disse Oli animado olhando para ela.

–Oli, eu não estou bem, não sei o que está acontecendo…  –Disse ela com uma das mãos sobre o peito. –Não sinto que meu coração voltou a bater totalmente, parece que ele esta diminuindo…. Oli não sei mais quanto tempo tenho, não sei se sou capaz de aguentar muito mais… –E assim que ela disse isso, novamente começou a tremer.

Oli, tomado pelo desespero completo colocou a mão sobre seu coração, realmente ele batia muito fracamente. Ele teria que fazer alguma coisa senão Jo morreria ali em seus braços! Oli começou a chorar em desespero, pedindo que o Artista a salvasse. Se Boris havia dito que ele poderia salva-la, ele acreditava, por isso pedia com força para ele.

Foi quando então Oli lembrou-se de algo que Boris havia dito “todas as peças vão se encaixar”. Todos os bonecos são feitos de peças, muitas delas, quem sabe se ele conseguisse achar qual peça estava errada ele pudesse conserta-la! Oli abriu então a caixinha no peito de Jo onde ficava seu coração, a peça central de todos os bonecos. Quando olhou pare ele, viu que seu coração era formado por duas peças, e uma delas não girava mais, a outro rodilha fazia todo o serviço sozinha, mas já devia estar muito cansada de girar só.

Oli pôs-se a chorar novamente, não havia nada que ele podia fazer! Ele não sabia construir peças tal como o Artista para que pudesse troca-la! Novamente então, ele começou a pedir com todas as forças que o Artista interferisse, enquanto ele olhava a rodilha diminuir sua rotação a cada segundo.

Nesse momento Oli teve uma ideia, uma ideia maravilhosa! Ele arrancou sua blusa e abriu a caixinha em que seu próprio coração estava guardado. Viu que as duas peças funcionavam perfeitamente! Pensou que se Jo havia vivido todos os anos que viveu com apenas uma rodilha ele também conseguiria, e assim como ela conseguiria mais anos de vida!

Era melhor viver apenas alguns anos com Jo do que muitos anos sem ela. Diante disso, Oli tirou uma das rodilhas de seu coração. Imediatamente ele sentiu seu corpo fraco, foi difícil respirar, mas não podia perder tempo, ele se acostumaria a sensação, assim como Jo. A rodilha no coração de Jo já quase não girava mais. Oli tirou a rodilha que não funcionava e colocou a sua rodilha no local exatamente no momento em que a outra rodilha parou de funcionar! Oli fechou os olhos pedindo que o Artista interferisse, que fizesse a rodilha girar, e ele fez! Poucos milésimos depois que colocou a rodilha ela voltou a rodar, e assim que o fez Oli viu um raio de luz passar por ela. Foi quando Jo abriu os olhos com um largo sorriso! Foi o dia mais feliz da vida de Oli e de Jo!

Oli entendeu então, que isso era o amor, o verdadeiro amor: ter um pedacinho do outro morando dentro de nós, nos dando vida, e um pedacinho nosso morando dentro do outro com ajuda da luz.

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