Noturno

 

Outubro, 2014

Cair num outro mundo não era assim tão ruim quando se caia em cima de uma pilha de algodão. Era isso que Pedro havia pensado quando aterrissou sobre o monte mais fofo dos mundos. A pilha era tão grande que seria impossível até para aquela princesa sensível de outro conto, que sentiu uma ervilha em meio há mil colchões, sentir uma pedrinha sequer do algodão. E sim, quando digo que a pilha era gigantesca, é porque ela era mesmo, Pedro levou mais de meia hora até conseguir chegar no chão!

Foi só quando colocou os pés no chão imundo de terra preta, porém, que reparou que o algodão em que havia caído não era aquele algodão comum, branquinho com que estava acostumado em seu mundo. Não, aquela podia ser a pilha mais fofa que ele já teria aterrissado, mas era certamente a mais imunda também. Afinal, a pilha de algodão estava toda marrom, coberta por terra e sujeira.

Pedro sacudiu os fios de algodão sujo de sua roupa e começou a andar.

Tirando o chão sujo, aquele mundo era bem parecido com o seu. Ao seu redor ele podia ver casas, prédios, pessoas com famílias e cachorros andando normalmente pelas ruas. A única coisa diferente do seu mundo era que nesse haviam postes exagerados de luz, eram estruturas enormes, pelo menos 10 vezes maior que o tamanho a que estava acostumado.

“Que grande besteira” – pensou Pedro cruzando os braços, rindo dos postes desproporcionais, pensando que eles faziam todos os cidadãos daquele local parecerem bobos. “Bobos que nem sabem fazer postes direito” – pensou Pedro cruzando os braços.

Pedro caminhou então até um local esquisito. Era um lugar como um parque, haviam balanços, escorregadores, redes, gangorras e vários bancos. Porém, não tinha grama e nem árvores. Era um parque a céu aberto, mas de concreto ao invés de grama.

“Esse lugar fica mais bobo cada vez que eu olho” – pensou Pedro bravo cruzando os braços e apertando-os junto ao peito enquanto sentava num banco. Foi quando percebeu que já quase não haviam pessoas por ali, deveria ser muito, muito tarde. Pedro deitou-se ali naquele banco mesmo e adormeceu.

Ele tivera a sensação de que havia dormido muito, porém quando começou a abrir os olhos, esperando a claridade do sol invadir-lhe, foi frustrado. Ainda estava escuro. Os postes enormes de luz continuavam iluminados. Mas, agora havia muita gente no parque.

“O povo desse mundo é muito estranho! Quem é que acorda de madrugada para ir a um parque? São uns bobos mesmo”. Pensou ele cruzando os braços e virando de costas para as pessoas. Fechou os olhos e tentou dormir novamente, mas não conseguiu. Parecia que se sono havia acabado de vez. E sendo assim, resolveu dar uma volta pelo mundo, já que ficaria ali por muito tempo, queria saber mais sobre como ele era.

O céu daquele lugar não tinha uma estrela sequer, era completamente negro. Olhando para o cima Pedro pode ver bem ao longe uma torre imensa, que era tão, mas tão grande, que chegava a perfurar as nuvens. Pedro novamente achou esquisita a vista, chegando a conclusão que o povo daquele mundo deveria ser obcecado por grandes construções.

“Um tanto bobo é esse povo. Tão bobo quanto as pessoas do meu antigo mundo.” –Pensou ele enquanto caminhava pela cidade.

Estranhamente, todas as lojas estavam abertas, o comércio parecia funcionar normalmente devido ao número de pessoas que entravam e saiam das lojas e dos prédios de forma apressada. Até mesmo via crianças andando nas ruas com seus pais, algumas delas de uniforme correndo até a escola, porque provavelmente estavam atrasadas. Mas atrasadas para a escola sendo que era noite ainda? Em que tipo de mundo Pedro estava?!

Em seus quase 13 anos de vida Pedro nunca havia visto tal coisa. Em seu mundo, chamado Mundo da Estrela, as únicas pessoas que costumavam ficar até muito tarde na rua eram os chamados “bagunceiros” pela cidade. Os bagunceiros eram um grupo que ficava a noite na rua, basicamente bagunçando toda a cidade, movendo prédios de um lugar para o outro, mudando placas, mudando as cores de algumas ruas e até mesmo pintando flores de cores diferentes. Quando a cidade acordava, pode-se imaginar o caos em que as pessoas se encontram, ninguém sabia como andar na rua, ninguém sabia aonde estava seu prédio de trabalho, nem mesmo as floriculturistas conseguiam achar rosas vermelhas para vender (as mais requisitadas), pois todas do jardim haviam sido pintadas de cinza! E ninguém nunca quer uma rosa cinza, todos sabem disso.

Querem saber quem fazia parte dos Bagunceiros? Isso mesmo, nosso menino Pedro aqui da história. Pedro, porém era o pior dos bagunceiros, alguns se contentavam com passar apenas 1 ou 2 horas na rua, bagunçando a vizinhança ou casa de seus pais, mas Pedro gostava de passar a noite inteira acordado. Seu maior desejo era bagunçar em uma noite seu mundo inteiro. Não se contentava apenas com casas ou bairros. Por várias vezes Pedro quase havia sido pego, pois ficava até o sol quase raiar para ir embora. Quando o sol raiava, as pessoas acordavam e poderiam descobrir quem eram os bagunceiros, e eles então sofreriam sérias consequências.

Bem, chegou um dia que faltou muito pouco para Pedro bagunçar todo o mundo, faltava apenas a cidade do prefeito para ser bagunçada. Faltando pouquíssimos minutos para o sol raiar o último amigo de Pedro o deixou sozinho, não ia arriscar ser pego, ainda mais pelo prefeito. Pedro não deu ouvidos ao seu amigo. Quando ele estava prestes a pintar a última bromélia da prefeitura de cinza o sol se ergueu no céu por completo e então o prefeito despertou.

Foi assim que Pedro foi pego. O prefeito até bem tentou conversar com Pedro, fazê-lo entender que não era certo ser um Bagunceiro. Porém, ele não deu ouvidos. Ser Bagunceiro era a única coisa que ele gostava de fazer e não havia nada de errado com um pouco de diversão em sua perspectiva. Com tanta arrogância de Pedro, o prefeito não teve outra saída senão cumprir a lei do local, que dizia que quando um Bagunceiro era pego e não se arrependia de seu crime, ele deveria ser banido do mundo.

Assim, Pedro foi banido do Mundo da Estrela e foi parar no mundo novo e esquisito em que estava. Pedro não gostava de seu mundo, o achava chato. Tão chato que ele tinha que ser um Bagunceiro para conseguir alguma diversão por ali. Aquele mundo esquisito e bobo, como Pedro diria, era quase tão chato quanto seu mundo local.

Mas voltando ao novo mundo, Pedro caminhou por muito tempo entre as ruas do novo mundo. Percebeu que realmente, a cidade funcionava normalmente, apesar de o sol não ter raiado ainda. Outra coisa curiosa que ele percebeu naquele mundo foi a torre imensa que perfurava as nuvens que ele antes havia visto. Depois de muito caminhar ele a encontrou. A torre imensa não era uma construção de metal ou cimento como qualquer outra, a torre era apenas um amontoado enorme de lixo! Mas não um lixo comum, em sacos plásticos pretos como era em seu mundo. O lixo que formava a imensa torre não estava em sacos, mas sim espalhado! Não eram restos de comida, mas sim algo que parecia como pedaços de metais enferrujados e deformados. Na verdade, mais se assemelhava a um monte de entulho do que de lixo.

Porém, o mais curioso nisso tudo era de onde vinha o entulho! Conforme Pedro observava as pessoas ele percebia que seus bolsos estavam cheios desse entulho e todos os habitantes daquele mundo jogavam esse entulho na pilha. Dessa forma, a pilha crescia muito a cada minuto que passava, pois muitos habitantes passavam ali para esvaziar os bolsos de suas calças.

Pedro observou aquilo com os olhos arregalados e a boca aberta. E quando colocou as mãos no bolso de sua calça, adivinhem!

Estavam cheios de entulho também!

Ele tinha certeza que não havia colocado nada em seus bolso. Quando observava as pessoas parecia que seus bolsos se enchiam do nada, mas ele imaginou ter alguma explicação lógica para aquilo. Imaginava que não tinha visto as pessoas pegarem o entulho e colocarem nos bolsos. Mas, não! O entulho surgia nos bolsos das pessoas como que por magia. Pedro fez o mesmo que os outros habitantes então e jogou ali as formas de metal enferrujadas de seu bolso.

“Se isso é magia, é uma magia boba. No mínimo, boba” –pensava Pedro cruzando os braços e franzindo o rosto. Se nesse novo mundo teria magia, que ela fosse pelo menos para lhe conseguir balas e não formas-de-metal-chatas-e-inúteis.

Pedro continuou assim caminhando por um longo tempo na cidade, tempo suficiente, pensava ele, para que o sol aparecesse mas mesmo assim ele não havia raiado ainda. No céu não havia sinal nenhum dele, o céu continuava o mesmo negro indistinto.

Pedro odiava conversar com pessoas, mas dessa vez era necessário que o fizesse, ele havia esquecido seu relógio no Mundo da Estrela e o único modo de saber que horas o sol nasceria seria perguntando que horas eram.

–Ei, que horas são? –Perguntou Pedro cutucando uma moça que passava ao seu lado. Pedro não sabia ser gentil, palavras educadas não era algo que ele gostasse de utilizar.

–Menino você não tem um relógio, não? –Perguntou a moça brava, franzindo as sobrancelhas. –Sabe eu estou muito atrasada, todo mundo aqui está! Você acha que eu tenho tempo de ficar conversando com um meninho sobre as horas?!

–Olha moça, eu não tenho relógio. Se tivesse não teria porque te perguntar!  –Gritou Pedro. –Agora será que dá pra me falar as horas, quero saber que horas nasce o sol nesse mundo esquisito e tolo.

–Você é muito grosseiro seu menino mal educado! –Disse a moça vermelha de raiva gritando. –Falarei apenas para que você possa me deixar ir embora seu rapaz chato! Agora são meio dia. O que significa que é quase hora do almoço e não fiz nem metade de meus afazeres! Eu não sei quem é esse tal de sol que você quer ver nascer. E veja bem como fala do meu mundo. Ele chama mundo Noturno e não esquisito e tolo. Alias, essas duas coisas é o que você é! –Com isso a moça saiu marchando pela rua sem olhar por nem mais um segundo para Pedro.

Você pode imaginar como então Pedro, que já não é um menino calmo – ao contrário, você deve ter percebido que ele é na verdade muito nervoso e bravo- como ele deveria estar após conversar com a moça tão grosseira. Pedro fechou as mãos em punhos e cruzou os braços. Estava tão bravo que teve que se sentar por alguns longos minutos num banco.

Quando finalmente se acalmou levantou-se do banco para continuar a caminhar pela cidade. Porém, assim que ficou em pé quase que foi forçado a se sentar de novo. O peso em seus bolsos estava insuportável! Eles estavam lotados de entulho e um entulho muito mais pesado que antes tinham em seu bolso, apesar de estar na mesma quantidade. Ele foi então, com muito esforço até a pilha imensa e os jogou lá.

Foi só depois que descartou o peso de seus bolsos que ele começou a pensar sobre o que a moça havia dito. Aquele mundo se chamava “Noturno”. Ele pensou muito e tentou se lembrar dos tempos que ia a escola, tentando lembrar se já havia aprendido sobre aquele planeta. Porém, não conseguiu se lembrar de nada. Não que ele fosse também um excelente aluno, pelo oposto, eram raríssimas as vezes que os professores e colegas o viam na sala de aula. Portanto, ele não sabia nada além do que já havia visto naquele mundo Noturno.

Outra coisa que a mulher tinha dito que era já meio dia. O que tornava tudo ainda mais estranho, se era meio dia o sol já deveria estar há muito tempo no céu, e no entanto, ele continuava totalmente negro! Esse pensamento o levou a mais uma coisa que a moça havia dito, ela havia falado que não sabia o que era o sol.

“Mas isso só poderia ser brincadeira, né?” –pensou Pedro. “Ela deveria estar tão estressada que resolveu pregar uma peça em mim me fazendo acreditar que ela realmente não sabia o que é o sol”.

Pedro então decidiu que era tudo uma grande brincadeira de mal gosto de uma mulher mal educada, nada além do que isso. E que aliás, tiraria isso a limpo rapidamente. Foi por isso então que assim que passou um grupo grande de pessoas ele perguntou a elas que horas eram.

–Meio dia e meio. Precisamente. –Respondeu um senhor de barbas brancas de forma irritadiça e cansada. Assim que o senhor respondeu ele logo começou a andar rapidamente – tanto ele como o grupo apressaram o passo. Mas, apesar de o grupo claramente não querer conversa com Pedro ele não pode, simplesmente não podia, deixar de lado a questão do sol.

–Mas vem cá, se já são mais de meio dia, cadê o sol? –Perguntou Pedro irritado, pensando se tratar de novo de uma brincadeira.

–Quem diabos é “sol” menino? Vá procurar algo mais útil que fazer que ficar inventado palavras! –Respondeu o senhor dessa vez gritando.

–É menino, vá embora, as pessoas não tem o dia todo para tagarelar com você sobre palavras imaginárias. –Completou uma mulher do grupo também já muito exaltada.

–Parem de brincar comigo! Que coisa mais chata! –Disse Pedro também gritando.

–Ninguém está brincando aqui rapazinho, agora pare de ser bobo e vá embora! –Gritou novamente o senhor.

–Sabe não dá para ficar brincando comigo o tempo todo! Uma hora o sol vai nascer! –Disse Pedro cruzando os braços, achando-se muito inteligente em sua fala.

–Mas que diabos! Eu já disse que não sei quem é esse tal de sol!

–Desculpe interromper senhor, mas há algum problema? –Perguntou um policial fardado com roupas cinzas, interrompendo a discussão.

Nesse momento Pedro pensou que agora sim tiraria a história a limpo, uma autoridade não mentiria para ele. Pessoas como policiais devem falar a verdade para os cidadãos e além disso proteger os menores, que no caso era ele mesmo.

“Estou a salvo, o policial vai me defender e mandar prender esses mentirosos” – pensou Pedro, porém nunca estiver ele tão enganado.

–Sim, tenho um grande problema aqui! Esse menino não para de gastar meu tempo com perguntas inúteis! Eu poderia estar trabalhando agora mas estou aqui a responder perguntas tolas sobre pessoas as quais eu não conheço! –Esbravejou o senhor.

–Que pessoa? De quem você quer saber? Por que está investigando os cidadãos da cidade? Que planeja moleque? –Perguntou o guarda bravo, colocando uma das mãos no ombro de Pedro e apertando-o.

–Nada… –A pressão do guarda era tanta que Pedro mal conseguia falar, sentia os nervos de seu corpo tenso, seu ombro se retraiu e ele não conseguia dizer uma palavra sem gaguejar. –Digo, não planejo nada e não procuro uma pessoa! Eu só quero saber que horas nasce o sol!

–E quem é o sol? Se você quer saber que horas ele nasce porque não perguntar para os pais dele? –Perguntou o guarda.

–O que? –Perguntou Pedro incrédulo, pensou que nunca em sua vida tinha ouvido uma pergunta tão boba como essa. –Como assim? O sol não é filho de ninguém! –Frente a isso Pedro viu que o guarda e todo o grupo de pessoas a sua frente estavam confusas, ninguém falava nada e eles se entreolhavam fazendo parecer que pensavam que o menino estava louco. –Pelos céus! Só pode ser brincadeira! Só pode ser brincadeira! O sol, sabe aquela bola amarela que fica no céu iluminando o mundo? –O rosto das pessoas se retraíram mais ainda em confusão. –Uma bola de fogo que está no espaço? Que esquenta o planeta…?

As pessoas ficaram alguns segundos ainda se entreolhando e limitando-se a piscar paradas olhando para o menino. Pedro esperava que eles fossem começar a rir e falar que sim, era tudo uma brincadeira, seu antigo mundo queria lhe dar uma lição e ele tinha caído.

Realmente, as pessoas explodiram numa grande risada, mas não na risada que Pedro esperava. As pessoas gargalhavam e o chamavam de louco, diziam terem ouvido algo tão absurdo.

“Você está louco rapaz!”; “vá procurar ajuda!”  –Eram esses os tipos de comentários que ele ouvia vindo do grupo. Até mesmo o guarda mal podia se conter. Além disso, aos poucos mais pessoas que andavam na rua naquele momento começou a se juntar ao grupo perguntando qual era o motivo da risada. As pessoas explicavam então o que o menino tinha falado em meio a muitos risos e logo em seguida a pessoa que ouvia também caía na mesma gargalhada.

Pedro estava estático, sem acreditar no que estava acontecendo. A multidão cresceu tanto que ele chegou a pensar em um momento que não havia uma pessoa daquele pequeno planeta que não estivesse ali apontando o dedo, rindo e debochando dele.

A situação chegou num ponto que Pedro não aguentou mais e saiu correndo do lugar. Conforme ele corria, as pessoas pelas quais passava chamavam seu nome e gritavam palavras debochando dele. Os olhos de Pedro que estavam já nublados de lágrimas conseguiriam enfim achar uma construção em andamento, onde ele se escondeu.

–Ei, você é o menino estava falando de um tal de sol, não é? –Perguntou uma voz feminina ao lado de Pedro.

Pedro estava com os joelhos apertados contra o peito e o rosto cheio de lágrimas mergulhado nas mãos. Quando ergueu os olhos para ver quem era que o chamava viu que se tratava de uma menina da mesma idade que ele. Ela estava de joelhos ao seu lado, tinha os cabelos loiros e olhos claros e gentis olhando para ele.

–Eu não sei o que é esse tal de sol que você fala. –Disse ela. –Mas, não acho que você esteja mentindo ou que seja louco, um dia quero conhecer o sol. –Disse ela com um sorriso.

–É… Obrigado… –Disse Pedro sem saber ao certo o que dizer.

Novamente Pedro viu-se inconformado com o ocorrido, era incrível como aquele mundo o conseguia surpreender a cada minuto. De fato a mulher não estava brincando com ele, aquele pequeno mundo, Noturno, realmente não tinha sol. Pensar que ele nunca mais veria o sol o fazia sentir nervoso, como se tivesse que ficar preso para sempre numa jaula. Era estranho sentir-se assim, antes, em seu antigo mundo, Estrela, o sol era seu inimigo. Antes o sinal do sol no céu era o sinal para fugir, o sinal de que ele tinha que parar as brincadeiras. A noite era o contrário, deixava-o feliz que poderia começar a bagunçar tudo. Mas nesse mundo, pensar que nunca mais haveria sol deixava-o triste e nervoso.

–Então, dá onde é que você veio? Você não é desse mundo, não é?

–Não, sou do Mundo da Estrela… Fui banido para cá.

–Nunca ouvi falar do seu mundo… –Disse a menina. –E lá tem esse tal de sol o tempo todo?

–Tem sol, mas não o tempo todo. –Tentou explicar Pedro. –Ele é… meio que reveza com a lua, algumas horas há o sol e outros há um céu como o desse mundo. Quando há o sol falamos que é “dia” quando há o céu desse mundo falamos que é “noite”. –Pedro se sentia tolo tendo que explicar algo que em sua cabeça era tão natural.

–Entendi… –Disse a menina parecendo confusa com as nomenclaturas. –Mas o que eu queria saber mesmo é se–

A conclusão da frase que a menina fazia Pedro jamais ficou sabendo, pois bem naquele exato momento Pedro começou a ouvir um zumbido tão alto que era quase ensurdecedor, fazendo com que fosse impossível ouvir qualquer coisa. Ele colocou as duas mãos sobre os ouvidos e as pressionou fortemente enquanto comprimia os olhos arqueava o corpo em dor. Pedro podia sentir as mãos finas e delicadas da menina chacoalhando-o, porém não conseguia dizer nada e nem abrir os olhos para entender o que acontecia.

De repente o barulho ficou ainda mais alto, sua cabeça girava e parecia estar prestes a explodir! Ele se levantou com um esforço absurdo, tudo o que pensava era que precisava sair do local aonde estava, quem sabe fora do prédio, na rua não estivesse tanto barulho.

Pedro tateou nas paredes até conseguir sair do prédio. Quando chegou na rua para a sua surpresa ele conseguiu abrir os olhos. Porém, não estava mais no mundo Noturno, estava em Estrela! Ainda era noite, mas Pedro reconheceu seu mundo pela prefeitura que havia ao seu lado. Mas, o barulho estava tão alto em seu ouvido que ele nem conseguiu sentir-se feliz por ver que tinha retornado, só conseguia pensar na dor que o barulho lhe proporcionava.

Pedro começou a correr pelas ruas, tentando achar uma que não tivesse sido tomada pelo barulho ensurdecedor. Estranhamente, não havia ninguém na rua, então ele podia correr da forma destrambelhada como corria, sem se preocupar em trombar com as pessoas. Ele conhecia aquela cidade como ninguém, por isso sabia os atalhos mais rápidos para chegar a sua casa. Ele correu até a esquina do quarteirão da prefeitura, onde tinha um supermercado normalmente, depois era só andar mais duas quadras, virar a esquerda, andar mais 3 quadras e pronto, estaria em casa!

Porém, quando Pedro virou a esquina, ao contrario de haver um supermercado, ali havia uma escola! Uma escola que normalmente ficava muito distante da prefeitura. Isso o deixou extremamente confuso. O barulho aumentava a cada segundo mais. Pedro tentou continuar a fazer o caminho que sabia, correu mais duas quadras, onde deveria ter uma praça, mas quando chegou lá não havia praça nenhuma! No lugar da praça havia um lixão!

Pedro parou na frente do lixão curvando as costas de tanta dor que o barulho lhe fazia. Percebeu que seu mundo estava todo bagunçado! Seria obra de algum de seus amigos? Antes que ele pudesse pensar muito mais no que fazer os sacos de lixo que havia ali começaram a crescer, como se alguém os tivesse empurrando para cima. Foi só quando a pilha de lixo já estava mais de 4 vezes a sua altura que ele percebeu que aquela não era uma pilha qualquer e que não havia ninguém empurrando o sacos para cima, ao contrário, os sacos de lixo se juntaram e se transformaram num enorme monstro cinza, semelhante a um Orc.

O monstro abriu a boca e assim que o fez o barulho ficou mais ensurdecedor ainda. A visão de Pedro escureceu, foi tomado por um medo tão grande que começou a correr em disparada totalmente sem rumo. Atrás de si ele podia sentir a terra tremendo pelos passos do enorme monstro.

Pedro já tinha os olhos cheios de lágrimas que escorriam pelas maçãs fofas de seu rosto e caiam no chão enquanto ele corria sem saber para onde. Estava tomado pelo completo desespero de estar no seu mundo Estrela mas não saber para onde ir porque ele estava todo bagunçado. Pedro sentia os passos do monstro cada vez mais próximo de suas costas e quando pensou que ele fosse o pegar fechou os olhos. Foi quando ele tropeçou em algo e caiu.

***

–Garoto do sol, ei, garoto do sol, pode me ouvir? –Disse uma voz de menina que fez Pedro abrir os olhos.

–O que aconteceu? Onde estou? –Perguntou ele abrindo aos poucos os olhos.

–Bom, acontece que depois que você esteve conversando com as pessoas sobre aonde esta o sol, você se esqueceu de deixar o entulho na pilha! –Disse a menina, e ele reconheceu que era a mesma menina do planeta Noturno que estava com ele na construção.

–O que você quer dizer? Não estou no meu mundo?

–Ah… Foi isso que você viu? –Perguntou a menina parecendo triste. –Vou te explicar, é que nesse mundo sempre que ficamos nervosos, bravos ou tristes nossos bolsos se enchem de entulho e nós temos que jogá-lo nessa pilha de que você está deitado, se não fizermos isso temos sonhos muito esquisitos que nos fazem correr como doidos pela cidade.

Foi só quando a menina disse isso que Pedro percebeu que estava deitado sobre a pilha de entulho do mundo.

–É… Desculpe, você estava correndo muito rápido e quando chegou perto da pilha eu tive que te empurrar aí pra deixar o entulho sair de seu bolso. Tentei conversar com você e te puxar mas você não me escutava… –Explicou a menina embaraçada.

–Ah, sim, tudo bem… –Disse Pedro entendendo agora o que tinha acontecido, ele não tinha voltado para Estrela, continuara em Noturno e havia sonhado apenas.

Pedro entendeu que se não fosse pela menina ele talvez jamais tivesse parado de sonhar, teria continuado a correr pela cidade até que não aguentasse mais. Se não fosse por ela algo de muito ruim poderia ter acontecido. E isso só tinha acontecido porque ele tinha se estressado muito com o povo da cidade, mas ele só se estressou com o povo da cidade porque havia sido banido para esse mundo pelas coisas ruins que havia feito em Estrela…

Foi nesse momento que Pedro se deu conta de como era ruim ter feito a bagunça que sempre fazia em seu mundo. Lembrou-se de como ele se sentiu mal por não conhecer seu próprio mundo ao tentar fugir do monstro. Percebeu que não era legal causar mal a outra pessoa, pensava em como todas as pessoas de seu mundo se sentiam irritadas quando ele mudava as coisas de lugar, como elas deveriam se sentir confusas e perdidas, tal como ele se sentiu. Porém no caso das pessoas de seu mundo não tinha ninguém para acabar com a bagunça rapidamente, como aconteceu com ele, não tinha como despertar as pessoas de um sonho, como a menina havia feito. Ao contrário, a cidade passava dias colocando as coisas em seu devido lugar. Pedro sentiu-se mal por ter causado tanta dor de cabeça nas pessoas de seu mundo que nada lhe fizeram.

Assim que Pedro levantou ele deu um abraço na menina e agradeceu a sua bondade por ajudar alguém que ela nem conhecia. Afinal, se não fosse por ela as coisas poderiam ter sido muito piores. Sentiu-se mal por ter julgados toda as pessoas da cidade como “bobos”, aquela menina não era nem um pouco isso, era uma das pessoas mais legais que conhecera.

–Imagina! Nós temos que ajudar uns aos outros, estamos todos aqui no mesmo mundo para sermos amigos não é mesmo? Por que senão o que explicaria eu ter te conhecido? –Disse ela com um sorriso no rosto.

Pedro sorriu-lhe de volta e olhou a pilha de entulho atrás de si, pensando em como era curioso que naquele mundo as emoções ruins se manifestassem daquela maneira. Quando olhou para a pilha, no local aonde estava deitado havia deixado desnível na pilha, esse desnível fez com que alguns pedaços de ferro caíssem alguns centímetros, se realojando na pilha, porém quando isso aconteceu para sua incrível surpresa ele viu um raio de luz sair por entre uma peça do entulho e outra, porém o raio foi rapidamente coberto por um pedaço de ferro que caíra sobre a fenda.

–Você viu isso? –Perguntou ele assustado para a menina.

–Não vi nada… –Respondeu ela. –O que é?

–Acho que tem algo por trás dessa pilha! Temos que tirá-la dai! –Disse o menino.

–Mas como? Não temos aonde colocar todo esse entulho…

–Deve ter algum jeito! –Disse o menino pegando um pedaço de ferro da pilha. O pedaço de ferrou começou a ficar quente em sua mão e então ele o jogou de volta na pilha.

–Ele fica quente, não é? Esqueci de te falar isso… Seria mais uma dificuldade para tirarmos o entulho daí.

–Por que essas coisas tem que ser tão feias? – Disse Pedro num suspiro ao sentar-se no chão e olhar a pilha de entulho com metais enferrujados e retorcidos.

–Não são tão feios assim. –Disse a menina sentando-se ao lado dele. –Feio é o que faz essas coisas, digo, nossos pensamentos que fazem essas coisas.

Os dois ficaram alguns minutos em silencio quando a menina gritou:

–Se o que cria essas coisas são pensamentos ruins já sei o que podemos tentar fazer para acabar com elas! –A menina levantou-se e pegou um dos ferros retorcidos da pilha e levou-o a sua boca, assoprando-o suavemente. Assim que o fez o ferro retorcido desapareceu em uma nuvem de fumaça branca!

–Incrível! Como você fez isso? –Perguntou Pedro impressionado ficando de pé ao seu lado.

–Apenas o assoprei! –Disse ela com um sorriso, pulando de alegria.

Logo ela e Pedro começaram a assoprar peça por peça da pilha enorme que compunha o entulho. A menina explicou para Pedro seu raciocínio: se o que havia criado aquelas figuras tinham sido pensamentos ruins, então tudo o que tinham que fazer para destruí-las era lhe dar o tratamento inverso, isto é, tinham que lhe dar pensamentos bons! Então os dois pensavam em coisas boas e assopravam os pensamentos para as peças, que se dissipavam numa nuvem branca.

–Veja, veja!! –Gritou Pedro quando estavam limpando já metade a pilha. Era possível ver alguns raios amarelados saindo do topo da pilha! Pedro e a menina sorriram um para o outro e continuaram o trabalho.

Esse foi um trabalho que levou muito, muito, tempo para ser concluído, mas foi feito com muita alegria. Assim que a última peça foi retirada, por de trás dela uma luz incrível se deu. Era a luz do sol! Ele havia ficado encoberto todo o tempo pelo entulho! As pessoas daquele mundo percebendo uma luz no céu andaram em direção a ela e quase não acreditaram no que viram.

O mundo Noturno se viu pela primeira vez iluminado! A luz do sol parecia ter aquecido e aclarado o coração das pessoas que pela primeira vez naquele mundo começavam a se abraçar e a dizer coisas boas umas para as outras.

As pessoas do mundo se desculparam com o menino por não terem acreditado no que ele havia dito. Além disso, a população sentiu-se tão agradecida a ele e a menina por terem feito o sol raiar em seu mundo que fizeram dos dois rei e rainha.

No mesmo dia o antigo mundo de Pedro lhe disse que ele era livre para retornar caso quisesse. Porém, Pedro jamais deixaria a sua amiga sozinha, os dois sabiam que seriam melhores amigos para sempre desde o momento que haviam se encontrado na construção, e como a menina já havia lhe falado, o que mais explicaria seu encontro senão o fato de terem que se ajudar e serem amigos? Os dois sentiam assim que precisavam ficar juntos. Além disso, Pedro sabia que aquele mundo precisava dele, caso o entulho surgisse de novo, ele teria que estar lá para limpar e ajudar. Aquele mundo o fazia inteiramente feliz, e por isso decidiu ficar.

A  partir daquele dia o sol em Noturno jamais deixou de raiar.

 

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