A Rosa Queimada

Junho / 2014

Dizem que não é possível recordar-se de cheiros ou sabores, apenas de momentos, sons e emoções. No máximo dizem que conseguimos lembrar se o cheiro ou o sabor foi agradável. Conseguimos também atribuir cheiros a certas pessoas conhecidas que já sentimos o perfume, assim um cheiro pode nos provocar uma memória. Mas uma memória provocar um cheiro? Não. Isso dizem que não é possível. Eu, porém, discordo veementemente dos que afirmam tais fatos. Mesmo passado tanto tempo o cheiro de queimado me é presente. Ele é forte. Denso. Escaldante. Sufoca-me. Recordo-o tanto que às vezes penso que parte de minha própria casa está em chamas.

O sol ainda não havia raiado quando cheguei e virei a placa pendurada na maçaneta da porta de “fechado” para “aberto”. Havia perdido o sono muito antes de meu despertador tocar e por isso decidi abrir a loja uma hora antes. Mal coloquei o avental rosa sobre minhas roupas quando uma senhora entrou. A saia até os pés e o moletom, ambos sujos e rasgados tornavam fácil de perceber que a condição financeira da velha senhora era baixíssima, provável que fosse uma moradora de rua. Por isso, espantei-me ao vê-la em minha loja, era uma das floriculturas mais caras da cidade, pensava que não era um lugar para aquele tipo de clientela. Enquanto a senhora passeava por entre as mesas cobertas com os mais diversos tipos de flores, senti medo de que ela pudesse me causar algum mal.

Não achava moradores de rua confiáveis, pensava que a qualquer momento eles poderiam me assaltar. Pensava nisso, mas pensava que principalmente eles podiam me causar algum mal por terem inveja de mim. Entendia que era bela, era adorada e o que chamariam hoje de “popular”. Estava sempre no meio dos mais ricos da cidade, nas festas mais badaladas, nos jornais mais famosos. Era claro que me invejavam, pensava eu.

Tamborilei os dedos rapidamente no balcão checando quanto tempo faltava para os funcionários da loja chegarem. Quando ergui os olhos tomei um susto ao ver que a senhora estava há poucos milímetros de meu rosto. Seus olhos arregalados azuis me encaravam dentro de seu rosto enrugado e sem expressão. Na mão direita ela estendia uma rosa vermelha. Por alguns segundos, pelo choque inicial, não soube o que fazer. A senhora, porém, manteve-se inerte me olhando com o braço estendido. Lhe disse por fim, então, o quanto era pela rosa. Tinha medo de que ela fosse se zangar, jogar a rosa em mim ou destruí-la com raiva bem na minha frente.

Foi nesse momento que uma funcionaria da loja chegou, porém não percebeu a estranheza da situação, começando seus afazeres diários normais.  Apesar de ela não estar mais no mesmo quarto que eu, senti-me mais segura. Se tivesse que gritar ao menos alguém me escutaria. Com isso em mente pude relaxar um pouco a tensão que sentia. Tensão essa que logo vi que era extremamente desnecessária. Ao contrário de todas as cenas que cogitei a senhora tirou do bolso algumas moedas. O barulho agudo e prolongado das moedas caindo e dançando uma a uma sobre o balcão de vidro enchiam a loja parecendo perfurar meus ouvidos. Foi só quando ela deixou a última moeda cair no balcão que a senhora enfim recolheu seu braço direito, deixou meus olhos e saiu da loja tão rápido quanto entrou.

A funcionária ouvindo o barulho das moedas caindo logo foi até o caixa e acompanhou a cena das últimas duas moedas caindo no balcão. Com uma mão sobre meu peito eu sentia meus batimentos cardíacos acelerados. Fechei os olhos tentando me acalmar. A funcionaria veio ao meu encontro imediatamente após a saída da senhora da loja. Dizia que havia sentido algo de estranho e perguntou-me o que havia acontecido. E eu gostaria de poder responde-la.

Toda a situação que havia passado me havia sido insólita, mas não tardou muito para que eu me deixasse convencer por mim mesma de que eram coisas do dia a dia. Clientes excêntricos sempre apareciam e essa havia sido só mais uma delas. Certifiquei-me de que o episódio não passaria mais do que um conto hilário contado a mesa de um bar banhada de cerveja.

Quando estava prestes a fechar a loja minha funcionaria que tomava um café enquanto olhava a rua através da vitrine me veio correndo até o caixa.

“Venha rápido! Você precisa ver isso! É a nossa cliente da manhã!” – Disse ela com os olhos arregalados segurando uma de minhas mãos.

Cheguei perto da vitrine e pude ver a velha senhora na esquina do outro lado da rua.  Assim que vi o que ela fazia coloquei uma de minhas mãos sobre a boca numa mistura de choque e perturbação. A senhora em uma das mãos segurava a rosa, na outra um isqueiro e pétala por pétala ela a queimava.

Por puro impulso sai da loja. Não saberia dizer se era porque na falta de filhos considerava as minhas flores minhas próprias crias e talvez num instinto materno as quisesse proteger. Talvez fosse apenas como meu cérebro reagiu a tal impulso, talvez tivesse me dado uma descarga de adrenalina que me impulsionava a correr. Talvez fosse porquê sentia raiva ao ver algo de precioso meu queimar. Dentre todas essas teorias nenhuma jamais me deixou satisfeita para explicar-me o porquê de meu ato.

Corri em direção a senhora, porém a poucos passos dela eu parei. Senti medo de confronta-la. Seu olhar era firme sobre a rosa, sentia como se a odiasse. Com força ela vociferava e não cansava de repetir:

“Vanitas vanitatum et omnia vanitas”

Ela estendia o isqueiro deixando que as labaredas amareladas do fogo lambassem e consumissem cada pétala da rosa. Fazendo com elas se enrugassem como se tivessem medo do fogo, como se tivessem medo da morte iminente que as seguia. Alegrei-me por não ser possível ouvir plantas gritarem. A tortura das pétalas não durava mais do que poucos segundos, nesse tempo elas perdiam todo seu cheiro doce e a cor de vermelho vívido. Transformavam-se em pétalas negras ausente de beleza. Ausente de vida.

Depois de alguns minutos a rosa enfim parou de queimar. Pareceu render-se a sua mortandade. A qual a velha senhora a olhou, sorriu-lhe e então olhou para mim. Sorriu-me. Virou a esquina rapidamente e desapareceu de meu campo de visão.

Sentia como se meus músculos estivessem entorpecidos. Estava atônita com  o que havia visto. Fui incapaz de dizer uma palavra a mais naquele dia. Não respondi aos convites de festas que me esperavam. Não fui à abertura da nova galeria de arte. Não compareci ao coquetel de inauguração de uma loja de grife renomada. Nem mesmo fui ao salão para fazer as unhas e o cabelo. Naquele dia fui incapaz de qualquer ato que não fosse o de pensar. Fui direto para casa, comi pouco e dormi cedo.

Apesar de passar o resto de meu dia pensando novamente não fui capaz de encontrar uma resposta satisfatória. Contentei-me ao velho clichê urbano “cada louco com sua mania”. Rolei para o lado e dormi.

No dia seguinte acordei bem. Vesti-me para o trabalho e não pensei mais na velha senhora. Cheguei no horário combinado naquele dia, e não uma hora antes como no dia anterior. Já havia alguns funcionários na loja cada um ocupado com sua própria tarefa, uns passavam o espanador nas mesas e no vidro, outros ajeitavam alguns arranjos com flores. Era só quando eu chegava que então abria efetivamente a loja para os clientes. Como eu gostava de ficar no caixa era natural que a loja só abrisse quando eu dissesse.

Gostava do caixa não só porque eu era a dona e então achava mais seguro tomar aquela posição na loja. A segurança nesse caso não passava de uma mera consequência. Gostava da posição em verdade porque deleitava-me ver o dinheiro entrando em minha conta. Gostava de acessa-la e ver o montante crescendo. Cada vez que via o número de crédito da loja aumentando eu sorria. Já logo fazia planos. Qual roupa comprar;  viagem fazer; cosmético comprar; tratamento de beleza e cirurgia estética fazer; acessórias a comprar; ou o mais importante de todos, qual presente estratégico comprar. Uma mulher em minha posição tinha que manter o nível de seu status pessoal no auge, tinha que estar impecável sempre e fazer com que os outros se sentissem impecáveis. Embora eu soubesse que esses “outros” jamais chegariam aos pés do que eu era.

Assim, como num ritual diário sentei-me no caixa, pedi para que abrissem a loja e acessei minha conta corrente. Olhar o número subir me faria esquecer por completo o episódio do dia anterior, pensava eu.

Ouvi um de meus funcionários dizer educadamente um “bom dia, seja bem vinda, se precisar de qualquer ajuda me chame” – tal como era exigido no livro sobre “regras de cortesia hipócrita essencial” que todos os donos de loja liam e sabiam de cor. Olhei para o relógio. Franzi as sobrancelhas. Ainda era muito cedo para ter algum cliente, normalmente as pessoas começavam a chegar de meia a uma hora após a abertura. Pensei que poderia ser algum cliente que havia decidido acordar cedo e surpreender sua mulher com um buquê no café da manhã. Ergui os olhos imaginando encontrar então um jovem recém-casado procurando aflito por uma flor que arrancasse um sorriso de seu amor. Estava pronta para levantar e dar algumas dicas para o jovem apaixonado, porém quando levantei do balcão e ergui meus olhos novamente tomei um susto. Novamente, bem a minha frente, com a mão direita estendida e comprimida em torno do caule de uma rosa carmim, estava a velha senhora do dia anterior.

Vi que novamente a cena do dia anterior se repetia. Meu tempo de reação novamente foi mais devagar do que o esperado. Demorei alguns segundos até dizer o quanto custava a flor. A senhora retirou novamente as moedas do bolso e uma a uma as deixou cair.

 

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