Desconcerto

Janeiro, 2014

A lua cheia, alta no céu iluminava a partitura velha e demasiadamente manuseada a  minha frente. Tantas vezes a havia lido, que sabia que a luz não era fundamental para que tocasse meu violino dentro do esperado na orquestra. Aquela noite era, no entanto, a primeira noite que eu tocava na orquestra local daquela pequena cidade a que havia mudado há poucos dias. A brisa leve da noite na primavera era agradável, assim como eu sentia que eram todos os meus novos colegas que sentavam a meu redor, talvez pela doce ignorância do desconhecido. Foi nessas condições que o vi pela primeira vez, tão logo que toquei o primeiro dó da sinfonia, ele se levantou do banco de madeira em que estava.

O senhor já de idade nitidamente avançada, de rugas profundas que marcavam cada emoção que tivera e de cabelos ralos e brancos, colocava uma das mãos acima e outra abaixo, levemente curvadas, como se abraçasse alguém que eu não pudesse ver com meus simples olhos. Ele dançou valsa com aquele ser etéreo do começo ao fim de todo o repertório programado para eu e meu colegas naquela noite. Achei um tanto engraçado a princípio toda a cena, achava que tal atitude incomum só poderia ser fruto de uma idade já tão avançada, que o cérebro cansado não mais conseguia realizar as sinapses de forma adequado para que entendesse por completo o que fazia. Ao final da terceira sinfonia, porém, me dei conta de que ele sabia exatamente o que fazia, ele olhava para o chão, para o ar que abraçava com ternura e felicidade ímpar e se movimentava perfeitamente ao ritmo da música. Fui para casa sem muitas conclusões palpáveis sobre o velho senhor, que por algum motivo me ocupou grande parte da mente naquela semana.

Nossa orquestra tocava toda semana e na semana seguinte do fato fui tocar novamente na praça local de chão que era cercada por banquinhos de madeira, como tantos outros ao longo da praça, que todas as semanas a equipe da prefeitura virava em direção a onde nossa orquestra ficava. Naquela noite, o céu estava completamente nublado, cobrindo por completo a lua, a qual senti sua ausência, assim como senti a do velho senhor. De alguma forma gostava de vê-lo dançar, o olhar que tinha em seus olhos animava as cordas que eu tocava.

Na semana seguinte porém, ele retornou, vestido como da última vez, de terno e gravata, assim que começamos a tocar ele se levantou e tornou a dançar com o ar. Ao final da primeira parte de orquestra, quando tínhamos uma pausa, perguntei ao colega ao meu lado quem era o tal senhor excêntrico que nos visitava e parecia ter uma imensa paixão por nossa música. Meu colega, ainda preso a primeira impressão imatura que eu tivera, riu, dizendo que era um velho já desgastado pela idade que por vezes vinha dançar em nosso pequeno concerto, que não sabia o que fazia e era sempre a atração da noite.  Ninguém nunca havia ao menos conversado com o pobre senhor de olhar tão cativante, algo que me deixou extremamente triste com os colegas a meu redor que tinha a mesma opinião do que o colega que eu havia questionado. Tratavam-no como um bobo da corte.

Quando terminei meu repertório e o senhor já se virava para sair da praça, fui atrás dele rapidamente. Apresentei-me de forma breve, e ele fez o mesmo, com um enorme sorriso rosto. Logo em seguida o silêncio estranho fez-se entre nós dois, e eu, um pouco envergonhado, não sabia por onde começar a perguntar o que tanto queria saber, então ele, talvez por compreender a confusão que expressava por minhas palavras desconexas e minha fala cortada, perguntou-me se eu queria saber porque ele dançava. Olhei para o chão desconcertado com e disse um fraco e envergonhado “sim” e ele com uma risada passou os braços ao meu redor, dizendo que se quisesse saber, que o acompanhasse até sua casa que ficava a poucos metros dali.

Sua feição se tornou dura quando começou a falar. Foram palavras as quais eu jamais me esqueci.

–Sabe filho, já passei por muitas coisas nessa vida, perdi meus pais a muito novo e perdi a mim mesmo por muitos anos. Fiz coisas que pessoas que tenham algum coração jamais fariam… –Ele parou um momento para respirar, como se revivesse por alguns segundos os dolorosos e angustiantes instantes que algum dia havia passado. Comprimiu os olhos e respirou fundo para que continuasse a falar, para que num suspiro buscasse forças para me contar suas memórias. –Um dia, porém, meus crimes me alcançaram. A claridade de meus atos começaram tecer-se em frente a meus olhos… Quando eu percebi tudo que havia feito, foi… Foi muito para mim. –Ele esfregou os punhos enquanto falava e ainda que quase apagadas, as cicatrizes ainda eram perceptíveis.

Por alguns minutos ficamos em silêncio, até que ele me abraçou, disse que me veria toda noite que houvesse a claridade da luz da lua para iluminar a orquestra.

Andei por mais algum tempo depois daquela conversa para pensar melhor no que ele havia me falado, percebi que todos ao meu redor, perdidos em sua ignorância e imersos em preconceito tinham uma visão completamente deturpada do velho senhor, ele não era um bobo da corte como pensavam. Entendi finalmente então porque ele dançava, o velho senhor não dançava com um ser etéro, com o simples ar ou com sua loucura.

Ele dançava com as próprias sombras.

 

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