Ensaio Sobre a Lucidez e o Estado de Histeria Democrática

Julho – 2015

 

Ensaio sobre a lucidez é livro obrigatório para todos que querem refletir sobre o sistema político que o circunda. Neste livro Saramago escreve no mesmo cenário de “Ensaio Sobre A Cegueira”, porém 4 anos após o episódio narrado. Em ensaio sobre a lucidez retoma-se o conceito de cegueira, seus desdobramentos expostos e os acontecimentos ocorridos com os personagens já conhecidos do primeiro livro, tudo para embasar sua crítica à democracia vigente.

O livro se inicia no dia das eleições, um dia muito chuvoso no qual as autoridades partidárias ficam muito preocupadas, pois apenas um punhado de pessoas foi exercer seu direito de cidadão. Como nada em Saramago é acidental, fica aqui segundo o Dicionário de símbolos de Chevalier e Gheerbrant o significado da chuva: “Aquilo que desce do céu para a terra é também a fertilidade do espírito, a luz, as influências espirituais”.

Apesar da chuva, quando se dá precisamente 16hs no relógio a maioria da população sai para votar, e o resultado dos votos revela que 70% da população votou em branco – episódio que fica conhecido como “cegueira branca”. As autoridades tentam pressionar a população perguntando-lhes o porquê desses atos, porém ninguém e capaz de lhes dar uma resposta satisfatória.

Os políticos, indignados com a situação ao invés de pensarem numa solução racional e democrática, escolhem agir de maneira arbitrária, inserindo-se numa completa histeria e consequentemente colocando o país em caos. Entretanto, apesar de as autoridades forçarem um estado caótico para que a população decida votar, esta age contrária a todas as expectativas e permanece calma, fato este que só serve para aumentar o clima de tensão no país.

Saramago busca nessa obra forçar uma reflexão acerca do sistema político-democrático que vivemos. Veja, apesar de o voto branco ser direito garantido pela legislação do país e feito com total lucidez pelos cidadãos, estes são rotulados como cegos e conspiradores antidemocráticos. É claro que a motivação das autoridades ao instituírem tais rótulos é clara: não querem perder os privilégios dos quais dispõem um cargo público. Mas, se de um lado há aqueles que cumprem com seu dever legal, e do outro há aqueles que se recusam a enxergar tal dispositivo normativo, quem é que está cego nessa história?

Às vezes faz-se necessário um descolamento de nossa realidade por meio de um caso extremo como o narrado no livro, para que possamos analisar a nossa sociedade de uma maneira melhor. É por isso que Huxley escreveu “Admirável Mundo Novo”, Ray Radbury escreveu “Fahrenheit 451”, e é por isso que Saramago nos leva a um outro país, que poderia ser o nosso próprio, para criticar a nossa realidade. A paz nesse mundo fictício não é atingida por violência mas sim por um grito estridente ainda que silencioso na prática: o voto branco e a consequente destruição do sistema anteriormente vigente, já que este não se encaixava mais nas necessidades da população.

É através da lucidez, do reconhecimento de seus direitos como cidadãos e dos resgates aos valores humanos tão esquecidos no dia-a-dia que o povo passa a concretizar a sábia epígrafe de “Ensaio sobre a Cegueira”, epígrafe esta que devemos ter sempre em mente ao olharmos para o nosso sistema político: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.

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