Supernova

Julho/ 2017

O tremor em suas mãos voltou. Eliza percebeu isso desde que havia saído do teatro na noite anterior, mas não havia falado nada. Assim que percebeu o tremor, enfiou rapidamente as mãos no bolso do casaco largo, 2 números acima de seu tamanho ideal, cuidadosamente escolhido por Pedro.

Eles não eram um casal que saíam muito, se haviam saído mais do que dez vez ao longo dos 9 anos de casamento seria muito. Para o teatro então, nem se fala! A última vez que Eliza se lembrava ter ido ao teatro havia sido há mais de 7 anos atrás. Ela havia tido tremores nessa época também, mas numa escala bem menor.

Lembrar do teatro a fazia tremer mais e em meio a lembrança as mãos vacilaram e a jarra de vidro de café se espatifou no chão.

O coração acelerou, correu pegar um pano, jogou-o no chão sobre o liquido e ja correu para a dispensa pegar mais café. Enquanto abria o saco com uma mão com a outra colocava água na cafeteira.

-Que droga está acontecendo aqui, Eliza? -Disse Pedro socando a mesa de madeira, fazendo a louça da mesa tremer e a faca cuidadosamente colocada sobre o pote de geleia tombou no chão, ecoando o barulho pela cozinha. O barulho era tão alto para Eliza que a fez pular. -Pelo amor de Deus, são 6:45 ainda.

Se o coração de Eliza já estava pulsando rapidamente com a queda da jarra, agora então estava saindo por sua boca, sentiu os pêlos do braço se ouriçarem, a boca secou e um choque de adrenalina percorreu seu corpo.

-Desculpe. -Disse com a voz trêmula.

-O que? O que você disse? -Chegou mais perto de Eliza. Ela estava paralisada. -Por que você fala tão baixo? Faz de propósito para eu não te ouvir?

-Não. Eu disse desculpe. -Falou Eliza engolindo em seco.

-Desculpe? Desculpe? -Pedro apoio os braços na cintura e começou a andar em círculos. -Eu já cansei de te falar. Eu tenho que acordar ter 8:30 de sono porque eu trabalho o dia todo pra que você possa comer! -Gritou batendo a mão no balcão da pia. -Eu tenho que acordar as 7:00 não às 6:45 com a droga de um vidro quebrando porque você não teve o mínimo de cuidado! -Ele suspirou passando as mãos pela testa suada. -Você não tem o mínimo de respeito por mim. Não entende o tanto que eu me mato pra colocar comida nessa mesa. Você só atrapalha tudo, não consegue reconhecer o tanto que faço por nós!

Eliza afundou as costas contra o balcão da cozinha até suas costas doerem.

-Desculpe. -Disse de novo, escondendo os olhos cheios de lágrimas.

Pedro ouviu, mas não se deu o trabalho de responder, apenas saiu da cozinha irritado.

Eliza respirou fundo, engoliu as lágrimas. Colocou a água na cafeteira e esperou o café começar a passar novamente. Quando ele fosse trabalhar ela recolheria os cacos do chão.

-Ei, desculpe. -Pedro abraçou Eliza por trás, afastando os cabelos longos cacheados e lhe dando um beijo no pescoço amostra.

Os olhos voltaram a se encher de lágrimas.

-Exagerei, sei que está fazendo o melhor que pode… Mas, você tem que me entender, tem que me ajudar aqui, Eliza. Eu estou me matando por nós, só preciso que você me entenda. -Ele apertou seu corpo contra o dela.

Ela respirou fundo, imóvel comprimiu os olhos. Ele não teria tempo para isso tinha que estar no trabalho em meia hora. Ele não tinha tempo. Ele não tinha tempo. Ele não tinha tempo. Repetiu várias em sua cabeça.

Ele a soltou em segundos, mas para elas pareceram horas.

Eles comeram sem dizer uma palavra para o outro. Por fim, precisamente as 7:45 ele levantou, lhe deu um beijo na testa e saiu.

Eliza era uma estátua na cadeira o sentimento de que não merecia aquele beijo a petrificava, rodeada por culpa e insuficiência. Ela era o copo meio vazio. Há muito tempo que ela apenas fazia coisas erradas, por mais que tentasse, nunca conseguia. Enterrou a cabeça nos braços cansada, depois de todo disparo de adrenalina seu corpo era invadido pelo cansaço.

A rotina da manhã não a era estranha. Os acontecimentos fáticos poderiam ser novos, mas os sentimentos e as ações tanto dele quanto dela já eram velhos conhecidos.

Entretanto, dessa vez a reação em ricochete de Eliza durou bem menos do que o habitual, em poucos minutos levantou a cabeça dos braços. Os sentimentos pesados se esvaeceram no ar como pó retirado de móveis em desuso. As mãos que haviam parado de tremer desde que tinha derrubado a jarra de café, voltaram a tremer.

Eliza parecia não sentir absolutamente nada, nenhuma dor, e, também, sequer qualquer alegria.

Levantou-se, pegou uma vassoura e começou a juntar os cacos. Via milhares de Elizas refletidas nos cacos de vidro do chão. Milhares de olhos inchados, olheiras e vermelhidões pelo rosto.

As imagens a assustaram. Estava assim há quanto tempo?

Correu para o espelho para confirmar a verdade escondida nos cacos. O espelho refletiu uma mulher esquelética, de os olhos tristes, fundos e desolados. Era um carcaça com uma alma escondida em algum canto obscuro. Ergueu as mãos ossudas e as viu tremer novamente. Esfregou-as, chacoalhou-as, mas insistiam em formigar e tremerem.

Voltou para a cozinha esforçando-se para segurar a vassoura com firmeza, tentando ignorar o tremor, mas era difícil.

Na tentativa de livrar-se do tremor começou a arrumar um antigo armário de sua casa que não arrumava há muitos anos. Ela tirou vários papéis da prateleira para tirar o pó e foi quando viu o folheto do último teatro que havia ido. A data marcava mais de 7 anos atrás, exatamente como havia lembrado naquela manhã.

Era tudo culpa do teatro. Ela amava teatro, quando mais jovem havia sido uma excelente atriz, mas largou tudo por Pedro. Ele disse que não a suportava ver com outros homens no palco. Os amigos e a família concordaram que era querer demais que um homem se conforme com uma profissão tão duvidosa. Ela aceitou, mudou. Passou a não fazer mais peças românticas, a aceitar papéis nos quais teria que contracenar com homens. Mas, isso não foi o suficiente. Ele queria mais. Aos poucos lhe foi revelando que não suportava ver que ela se divertia em sua ausência. Achava que o teatro fazia mais bem a ela do que ele próprio. E essa ideia ele não podia suportar.

Ela lembrava vagamente de algumas brigas, mas acabou cedendo. Largou o teatro sob a barganha de que ela poderia assistir qual peça quisesse. Mas, foi apenas ela comentar numa roda de amigos que se divertia assistindo peças que o drama voltou. Nesse ponto eles já eram casados, ela tinha que segurar o casamento sob o argumento de que seria horrível separar depois de menos de 1 ano casada. O que os outros diriam?

Aos poucos o que era uma preocupação com a diversão do teatro, passou a ser uma preocupação com a diversão que ela tinha com os amigos. Quando ela os largou também, a preocupação mudou para as menores coisas: ir ao shopping sozinha, sair para caminhar, ver a família…

Com o folheto do teatro nas mãos sentiu as mãos acalmarem e o coração desacelerar.

Com a percepção, explodiu em milhares de pedaços.

Como se seu interior fosse tomado por reações termonucleares, explodiu num brilho repentino como uma Supernova, entretanto, essa Supernova não estava no início da sua fase final de evolução estrelar, ao contrário, estava apenas começando.

É que ela era luz, e ele só estava na frente, bloqueando-a.

“Uma supernova é um corpo celeste que teve origem após a explosão de uma estrela cuja massa é aproximadamente 10 vezes superior à massa do Sol. Na formação de uma supernova, todo o hidrogênio é consumido e uma determinada estrela sofre um repentino aumento de brilho, com variações que podem atingir 19 magnitudes (cerca de 100 vezes mais brilhantes que uma nova ordinária). O brilho causado pela explosão de uma supernova pode demorar semanas ou até meses a desaparecer. As supernovas representam o começo da fase final da evolução das estrelas de grande massa” – Significados 

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