Exílio

Agosto / 2015

Retirando-o de seus sonhos turbulentos e sombrios, a luz invadindo a janela ao lado de sua cama jogou-o para a realidade. A taquicardia que se instalava em seu peito o deixava nervoso agora que tinha consciência dela.  Enquanto concentrava-se em respirar calmamente, colocou as mãos com palmas suadas em seu peito que subia e descia rapidamente. Passou as mãos pelo rosto cansado e virou o corpo. Olhou para os braços amassados pelos lençóis abarrotados, molhados de suor que jaziam embaixo de seu corpo dormente e febril. Forçou os braços contra o colchão, tentando alavancar o tronco e sentar-se. Assim que o fez, porém, foi forçado a arquear o corpo e apoiar a cabeça nas duas mãos. Uma dor alucinante lhe perfurou o fundo dos olhos e se propagou por todo seu crânio. Fechou os olhos e tentou se concentrar em respirar mais uma vez. Ficou longos minutos assim, esperando de dor diminuir a intensidade, para finalmente poder abrir os olhos.

Entretanto, agora o que se comprimia era seu estômago. Sentiu a onda ácida da bílis subir por sua garganta e invadir-lhe a boca. Os músculos da faringe se retraíram involuntariamente. Num reflexo ele virou a cabeça e deixou que o corpo expulsasse o conteúdo do estômago no chão. O cheiro azedo subiu-lhe as narinas e sentiu novamente o abdominal se retraindo. Tentou ficar de pé, mas tão logo que o fez, seu labirinto perdeu a estabilidade e com uma das mãos apoiou na parede antes de deixar o corpo tombar no chão.

Sentia-se enjoado, mas não sabia o porquê.

“O que comi ontem? Será que ela deixou alguma comida no microondas? Ou será que fui jantar fora?”

Forçou as pernas mesmo bambas a impelir o corpo ao banheiro. Assim que desabotoou o primeiro botão da calça percebeu então que ainda estava com as roupas do trabalho. “Por que estou com essas roupas? Será que dormi com elas?” Pensava olhando a camisa. “Mas, ora, isso nunca me aconteceu! Que diabos fiz ontem?”

O trabalho era o que tinha de mais importante e crucial. Em sua vida jamais abarrotaria o uniforme, que com tanto carinho dobrava e deixava separado todas as manhãs. Jamais dormiria com ele! “Quem é que dormia, afinal, com o uniforme do trabalho?” Tamanha irresponsabilidade ele nunca cometeria, e, por isso, esforçava-se ao máximo para se lembrar da noite anterior.

Tirou as calças e a camisa de chita azul, sujas e suadas. Jogou-as no cesto de roupa suja colocado na quina do banheiro. Sentiu um cheiro forte de álcool invadindo-lhe as narinas. Pegou as roupas do cesto, diversas manchas se encontravam nelas, cheirou-as sentindo o odor forte de cachaça. Sentiu o gosto da bílis rapidamente de volta, subindo-lhe a garganta. Levou uma das mãos a boca e jogou as roupas para longe. Saiu o mais rápido que pode e sentou-se na cama, colocada bem a frente da porta do banheiro.

“Então é isso, eu bebi”. Concluiu sua mente recebendo então uma série de lampejos desconexos da noite passada.

Pessoas. Copos. Balcão de madeira. Uma garçonete com decotes provocantes. Dinheiro no balcão. Risadas. Garrafas. Pés. Paralelepípedo. Molhado.

Abaixou a cabeça arqueando o corpo, como se os lampejos fossem socos desferidos brutalmente em seu estômago.

“Que foi que fiz ontem?”

Levantou-se novamente da cama, precisava de uma aspirina. A dor que o perfurava como agulhas de crochê havia voltado, e a cada segundo ficava mais intensa. A fotofobia causada pela dor lhe forçava a andar rente a parede, tateando-a com os olhos entreabertos.

Sentiu o batente da porta de seu quarto sob seus dedos e entrou na sala, foi quando trombou num aparador, fazendo com que um porta-retratos se estilhasse no chão. Dobrou as pernas cansadas e trêmulas para pegar o porta-retratos. Tentou pegá-lo por suas égides, mas soltou-o novamente no chão assim que o levantou, não viu que ali tinha um caco de vidro e este rasgou-lhe o indicador. O sangue carminado brotava forte do corte pequeno e profundo. Colocou o dedo que pulsava na boca, sentindo o gosto de ferro e álcool. Abaixou-se novamente para pegar o porta-retratos, agora, porém, com mais cuidado.

Olhou a foto, era um rapaz, que sem sorrir, olhava sério para uma frigideira que tinha em uma das mãos. As sobrancelhas arquearam em desentendimento. Não reconhecia aquele homem. “Será que ela deixou um de seus porta-retratos pessoais em meu apartamento?” Para sua surpresa, quando esticou os joelhos para colocar o porta-retratos de volta no aparador, de relance viu a mesma figura desconhecida em outro porta-retratos, pegou-o com as duas mãos e aproximou-o dos olhos. Dessa vez, a figura desconhecida tinha uma mochila nas costas e olhava para trás, aqui também não sorria, apenas encarava o fotografo com os olhos cerrados e nitidamente irritados.

“Ela deve estar trazendo suas tralhas para minha casa, está se mudando para meu apartamento. É isso. Só pode ser”.

Olhava o porta-retratos e ainda que sem saber quem era a figura na foto sentia-se mal por olhá-lo. Olhava a figura de melancolia estática com medo. “Que terrível seria viver uma vida inteira triste!” Não sabia se a pessoa da foto realmente seria sua vida inteira triste, mas mesmo assim o que tinha nas mãos era a melancolia perpetua daquela pessoa. Para sempre seria triste dentro de uma estrutura de metal. A foto jamais seria diferente, não havia perspectiva de mudança nela. Perspectiva de mudança é somente algo que existe em seres e atrelado a vontade. Só assim pode alguém escapar do eterno e do incômodo sentimento de infelicidade.

Sentiu o corpo tremer, retirando-o de seu devaneio. A persiana aberta deixava o ar gélido da manhã soprar e atingir seu peito nu. Precisava de uma blusa. “Que deu em mim para pensar em absurdos agora?” Sacudiu a cabeça e voltou para o quarto, abriu o guarda-roupa em frente a cama e rapidamente vestiu-se com as primeiras peças que alcançou. Fechou a porta com um estalo e seus olhos, de relance, viram a camisa embebida em álcool jogada sobre um ladrilho branco e quebrado de seu banheiro. O martelo coberto por labaredas bordado no bolso da camisa sobre o peito olhava-o de forma reprovadora, como se ele soubesse mais do que havia feito na noite passada do que ele próprio. O bordado do logo da empresa continuava a fitá-lo e então uma série de lampejos novamente se seguiram em sua mente.

Ele de pé na frente do chefe. Uma caneta tinteiro sobre a mesa. O chefe passando as mãos pelos cabelos negros. Irritação. Ele balançava a caneta entre os dedos sentindo-se incomodado. Conversaram. O chefe lhe entregou um papel. Assinou um documento. Angustia. Medo.

“Fui demitido”.

Disse alguma voz obscura em sua mente lhe puxando dos lampejos. Lembrava-se agora do ocorrido. Fora demitido e logo em seguida havia ido ao bar, alguém do trabalho disse que poderia lhe fazer bem.

Subitamente a cabeça pesou e o coração pareceu para por alguns segundos. “Que vou fazer agora? O que será de mim?” Perguntava-se a mente que logo se tornara-se inquieta. Nunca fizera nada além de trabalhar, afinal que haveria de vida fora do trabalho? Não entendia como havia acontecido, anos na mesma fábrica. Fazia seu trabalho bem!

Obsoleto.

A palavra ecoou em sua mente. Era essa a palavra que o chefe havia utilizado. Obsoleto. Haviam trocado seu trabalho por uma máquina e no fim, era só isso que lhe restava, uma única palavra, obsoleto.

Aquela era a sua função por toda uma vida e os fios grisalhos já há muito despontavam em sua cabeça, nunca havia ligado para tal fato. Porém, agora era diferente. “O que vou fazer nas horas vagas?” Trabalhava duro e muitas horas todos os dias, chegava em casa, tomava banho e comia, para então dormir e deixar o eterno e pálido ciclo de monotonia estática se reproduzir de novo.

“O trabalho é a única coisa que importa” –era o que dizia seu pai frequentemente. Era o que ele cresceu ouvindo. Era o que ele acreditava. Era o que o definia.

“Sou operário” –dizia ele quando lhe perguntavam quem era. Orgulhava-se da resposta. “E agora sem trabalho? O que vou fazer? Para onde vou? Quem serei? Que resposta darei?”

Começou a pensar então que talvez não fosse ele que tivesse se tornado obsoleto para o trabalho, mas sim o trabalho que havia se tornado obsoleto para ele. Quando pensava agora no trabalho, não sentia a estabilidade de sempre, ao contrário, sentia o transtorno que era pensar.

“Mas será que algum dia pensei em coisa alguma?”

Não. Como uma maquina velha, ele produzia e consertava as peças erradas, não era rápido, mas fazia seu trabalho com destreza e cuidado. “Não era um trabalho para ser, mas sim para fazer”. Não pensava e tudo estava bem, não tinha com o que se preocupar quando a mente estava quieta e adormecida devido as repetições fatídicas do que lhe mandavam fazer. Era essa a única coisa que lhe ascendia o cérebro, a única minúscula parte que o iluminava, mas e o restante? E a imensa parte restante que esquecerá? Que deixara adormecer?

Quem era? Do que gostava? Quais eram seus sonhos nunca conquistados, amores nunca beijados, promessas que jamais cumprira?

O Golias adormecido em sua mente despertou num grito. Tudo o que ele podia pensar em fazer era levantar e sair daquele exílio. Há tanto tempo estava adormecido, congelado, nas entranhas de seu crânio! Só o que queria fazer era mostrar que despertara, que voltara para casa! Ele não estava mais parado estaticamente. Queria viver. Queria mudança.

Enfiou rapidamente um chinelo nos pés, dirigiu-se o mais rápido que pode até a porta da frente de sua casa. Na porta branca a sua frente havia um reflexo pálido de luz solar. Olhou para trás e viu novamente a porta, a superfície de vidro e metal super polido refletia-a. Ao olhar para trás enfim reconheceu o homem dos porta-retratos na sala. Golias abriu rapidamente a porta e saiu.

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