A Bruma

Julho / 2012

Isis caminhava por ruas tortas e estreitas, sua cabeça girava, os olhos voavam em todas as direções da rua, procurando um ponto de referência conhecido, alguém conhecido. Estava perdida, sem direção, desnorteada. Nunca havia visto aquele chão formado por pedras irregulares cinzentas e manchadas e de algum material viscoso preto.

O céu parecia estar coberto por um bloco de concreto, nenhum raio de sol parecia se esforçar para atravessá-lo, se é que tinha mesmo um sol por de trás de tal imensidão acinzentada.

Olhando a sua volta, não havia sinal de vida humana, a cidade era desértica, aos lados os edifícios e casa pareciam ameaçadoramente querer deixa-la abafada, sufocada, era como se os prédios parecessem querer tombar para cima de si a cada passo, a cada busca cansativa por simples oxigênio que cada vez mais parecia difícil de achar naquela situação.

Fechou os olhos e abraçou os próprios braços nus, estava gelada, sua boca tremia ao tentar respirar. Precisava entrar em algum lugar para se esconder, foi a ideia que lhe veio como um baque na cabeça. Tentou com todas as forças correr até os edifícios e entrar neles, bateu nas portas e tentou forçar sua entrada, porém era inútil, tudo estava trancado. A cada passo parecia que suas pernas ficavam mais e mais cansadas.

Parou no meio de uma rua, exausta, apoiando as mãos nos joelhos cansados, os pulmões lhe suplicavam por ar e por isso se encontrava arfando. Foi quando levantou a cabeça e se deparou com uma mulher, olhando-a diretamente nos olhos, estava a menos de dois dedos de distância de seu rosto, com uma tez que conseguia ser mais branca que os fios de seus cabelos longos e lisos, a única coisa que contrastava com com seu rosto e com toda a roupa branca eram os olhos, tão negros que pareciam turmalinas em meio a uma montanha de coberta por neve.

Involuntariamente, Isis viu-se dando um passo para trás, seu coração tamborilava forte em seu peito e mais uma vez seus pulmões pareciam lhe pedir mais ar.

-Com medo, Isis? -Perguntou a mulher pálida de cabelos longos e brancos, que balançavam estranhamente para trás, pois ali não havia sinal sequer de vento.

-Quem é você? -Disse Isis assim que reuniu coragem.

-Será que importa realmente quem eu sou? -O tom de intimidador em sua voz fez com que os pêlos dos braços de Isis se levantassem, elas os cruzou rapidamente, virou o rosto e não disse nada, perpetuando por longos segundos a tensão do momento

-De que adiantaria fugir, Isis? -Perguntou a mulher de forma intimidadora, parecendo perfurá-la os olhos, que se apertavam e pareciam enxergar dentro dela mesma. -Olhe em volta, é uma cidade desértica, não há mais ninguém aqui, apenas você.

Apenas eu e você, Isis pensou em dizer, porém não disse nada, continuou com os braços cruzados e o rosto virado para o lado, havia algo de estranhamente assustador e familiar em seu olhar.

-Responda-me, por que pensou em fugir? -Perguntou ela novamente, o que fazia Isis sentir atormentada com tantas perguntas, pensou que prisioneiros de crimes contra o Estado deveriam se sentir dessa forma num interrogatório.

Ela porém, não foi capaz de responder, apenas se encolheu mais ainda, na realidade, não sabia por quê queria fugir, apenas queria, queria sair daquele instante e se esconder, ficar só, sem intimidações e angústias.

-Pare com essa defensiva, Isis. – Falou a mulher num tom alto e forte. – Você bem sabe que quis fugir por medo. Sentiu medo ao se ver sozinha, medo por tudo fugir de seu controle, fugir de sua rotina patética.

Rotina patética.

As palavras duras ecoaram em sua cabeça, era isso o que acontecia exatamente, todos os dias eram iguais, lhe doíam as palavras porque sabia que elas eram verdadeiras e não há dor pior do que o saber da realidade negligenciada.

-Será mesmo que gostava da rotina? – Perguntou a mulher, ou teria sido a própria Isis questionando-se? Não sabia, tudo parecia estar sob uma bruma mística que de alguma forma enevoava seu pensar. Não sabia ao certo o quanto tinha conversado com a mulher e quanto tinha conversado consigo mesma, em sua cabeça.

Todos os dias eram cinzentos, chatos e fatídicos. Será que era o que queria? Ela nunca se permita pensar assim, sempre que começava a pensar, desviava e pensava em outras coisas, fechar os olhos para os problemas sempre lhe pareceu perfeitamente aceitável, era cômodo, se tinha que trabalhar, por que pensar sobre ele? Para doer seus ser ainda mais sobre ofício que realizava para sobreviver?

-Nem mesmo pensa mais, não é mesmo? Dolorido pensar e aceitar a realidade dos fatos.

Era verdade, era tudo verdade, Isis sabia que ela falava a verdade, precisa questionar, precisava sair da rotina terrível que criara. Mas questionar doía, a mudança doía. Acomodação era sinônimo de segurança. Porém naquele ponto era inevitável, precisa questionar, precisa pensar precisava sair, a vontade pulsava em seu peito, a mente já se agitava pensando em soluções.

-Pare de se auto-enganar.

Novamente Isis não sabia mais quem havia falado aquilo, seria a mulher ou ela para si mesma? A verdade é que naquele momento não importava o interlocutor, importava o conteúdo. Conteúdo este que tomava conta de todo o seu ser, as palavras pareciam transbordar os pensamentos, soluções começavam a lhe surgir e mais importante do as soluções, compreensões começavam também a se formar, deixava que todo o fluxo de ideias contidas por tanto tempo se revelassem.

Aos poucos Isis percebeu que o céu ficava mais claro, tudo estava retornando as cores e até mesmo parecia conseguir respirar melhor. Parecia não sentir mais aquela angústia inicial que sentia quando estava ali parada há alguns segundos, sabia o que fazer.

A cada segundo que passava, a cidade cinzenta parecia cada vez mais bonita, o Sol começava a entrar e os prédios pareciam se afastar, deixando espaço para ela respirar.

Toda tristeza, frio, o abafamento e dúvidas que sentia tinham desaparecidos, os objetivos estavam cristalinos em sua cabeça, assim como a cidade em sua volta.

Uma alegria profunda tomou conta de si, a certeza de ter descoberto a saída para a estufa de tristeza que havia criado era de puro êxtase.

Olhou para a mulher em sua frente, já não parecia mais autoritária, parecia alegre e o sorriso que se formava em seu rosto era o mais bonito que já havia visto. Isis lhe devia tudo, tudo estava claro porque ela estava lá, ela fora a chave.

-Por favor, me diga apenas quem você é. -Pediu Isis, ela precisava saber quem era aquela que a havia ajudado mais do que qualquer outra pessoa no mundo.

A mulher lhe sorriu e balançou a cabeça de forma brincalhona, parecendo não acreditar na pergunta.

-Ora, eu sou a Isis, sou a Isis mais profunda em você, sou sua consciência.

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